'O encarceramento em massa é assustador'

Entrevista com

Flora Daemon

Clarissa Thomé, O Estado de S. Paulo

30 Maio 2014 | 18h36

RIO - A vice-coordenadora do Núcleo de Estudos em Violência e Comunicação da Universidade Federal Fluminense, Flora Daemon, se posiciona sobre o aumento do número de apreensões de crianças e adolescente infratores no Estado do Rio.

Como você vê essa evolução da apreensão de crianças e adolescentes infratores?

Esse encarceramento em massa é assustador. Surge como uma lamentável promessa de limpeza, mas que só está empurrando o problema com a barriga. Jogar quem comete crime de natureza social, como um furto, nesses abrigos só vai capacitá-lo em outras práticas ilegais. É perverso: o Estado que não te garante nada, não cumpre a função de educar, não leva água e esgoto, te remove da sua casa, é aquele que te pune exemplarmente na primeira falta, e te leva a conviver com pessoas que cometeram crimes sérios.

Você trabalhou como gestora social de territórios, pela Secretaria de Estado de Direitos Humanos, em duas favelas que receberam UPP. O que está acontecendo nessas comunidades?

Houve um incremento de política de segurança que chegou com uma série de promessas e algumas não se concretizaram. Não adianta que o projeto de melhoria de vida passe apenas pelo viés da segurança pública. Quando o jovem se depara com o esgoto e rato na porta, sem escola, sem curso técnico, em que há toque de recolher, porque quem fica na rua depois de 21 horas é considerado como alguém com atitude suspeita, ele vê que não houve mudança real. Ele deixa de acreditar no projeto. No fim, o tráfico não se extinguiu e a promessa de uma cidade mais democrática para todos não se cumpriu.

O que precisa ser aprimorado?

O Estado que teve a coragem de colocar UPP no morro tem que ter a coragem de colocar agente de cultura, agente de educação para ouvir esse jovem, conhecer a cara desse jovem e oferecer projetos que tenham impacto transformador na vida dele, que sejam do interesse dele, de forma horizontalizada e pactuada com a juventude local. O Estado não pode escolher o que é melhor para esse jovem de forma autoritária, ou ele não vai aderir a esse projeto. Tem que haver diálogo.

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