O engenheiro especializado em Jardins

Alexandre de Souza Lima se tornou o construtor preferido do miolo nobre - e caro - de SP

Edison Veiga, O Estadao de S.Paulo

08 de março de 2009 | 00h00

Pelo menos uma vez por semana, o engenheiro civil Alexandre de Souza Lima deixa seu carro em um estacionamento na Rua Sarandi e ziguezagueia, a pé, mais de 4 quilômetros pelos Jardins. Não é um passeio qualquer. Durante 40 minutos observa atentamente os imóveis das Ruas Oscar Freire, Haddock Lobo, Bela Cintra e Alameda Lorena, entre outras. "Ando sempre pelas quadras mais nobres", ressalta. A semelhança entre ele e os milhares de endinheirados que percorrem - e consomem - nesses luxuosos endereços paulistanos para por aí. O tour semanal de Alexandre é estritamente profissional. Dono da construtora Souza Lima, boa parte de seus clientes está ou pretende estar nos Jardins. "Muitos me procuram ainda antes de terem o ponto", explica. "Então fico de olho nas lojas, vejo se tem alguma com indícios de que vai fechar... Preciso saber o que funciona em cada rua."Sua estratégia dá certo. Aos 35 anos, se orgulha de ser o engenheiro que mais toca obras nos Jardins. "Nos últimos três anos, foram mais de 80 imóveis nessa região", conta ele. Atualmente, há três em construção por ali - dentre as 16 em andamento pela construtora, no total. São marcas importantes do miolinho nobre paulistano, que renderam a Alexandre o epíteto de "engenheiro das grifes": as lojas Le Lis Blanc, Fause Haten, Carlos Miele, Zeferino e Sacada, entre outras. E o Espaço Santa Helena, a Chocolat Du Jour... Sua construtora, fundada em 1996, quando ele ainda era estudante, acumula no currículo mais de 500 obras. Noventa por cento, na capital paulista. Vão de unidades da marca de cosméticos Anna Pegova a restaurantes como A Bela Sintra, Café de La Musique, Tahitian Noni, o tradicional Pandoro - sua reconstrução - e o recém-inaugurado Le Bouteque, de Erick Jacquin e Evandro Andreoni. PRIMEIROS PASSOSAlexandre não é desses predestinados, que ainda crianças demonstram aptidão extraordinária para esta ou aquela vocação. Decidiu cursar Engenharia na hora do vestibular. "Me preocupava com o futuro, em como iria sobreviver", admite. "Tinha dúvidas entre Direito e Engenharia." Ele afirma que o namoro o ajudou a tomar gosto pela profissão. "Conheci uma menina, que hoje é minha mulher (a médica Cristina), filha de um engenheiro. Passei a ver mais de perto e a gostar da área."Em 1995, participou do concurso Jovem Cientista com uma discussão sobre o desperdício na construção civil. Sua monografia fugia do lugar-comum. "Falava-se muito que a cada oito prédios que se constrói, dois se perdem em desperdício", lembra. "Quis mostrar que o prejuízo é muito maior em outras coisas que ninguém tratava, como os encargos burocráticos." Ganhou o prêmio. Recebeu uma homenagem em Brasília e almoçou com o então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso. Seu estudo foi publicado, no mesmo ano, pelo Sindicato da Construção Civil de Grandes Estruturas no Estado de São Paulo (Sinduscon). O livreto chama-se Redução de Custos na Construção Civil: Uma Visão Mais Ampla. "Passei a ser convidado para dar diversas palestras sobre o assunto", conta. PASSOS MAIORESA Souza Lima nasceu em 1996. "Era apenas eu e um peãozinho", lembra Alexandre, que hoje emprega 60 funcionários internos e gera de 400 a 450 empregos indiretos - chega a conduzir 20 obras simultâneas. "No começo a gente dava muita manutenção. Eu ligava para os caras e fazia o que tinha, desentupimento, esses servicinhos." Foi graças a um desses servicinhos que ele conseguiu conquistar o primeiro grande cliente.Era verão, entre 1996 e 1997. O problema estava na primeira sorveteria Parmalat de São Paulo, em plena Rua Oscar Freire. "Ligaram para mim desesperados", conta. A máquina de sorvete da empresa tinha uma serpentina na qual passava água fria para resfriá-los. "A água entrava e era jogada fora, limpinha." Eles tinham um reservatório com 20 mil litros de água e pediram para que Alexandre bolasse um sistema para 30 mil litros. "Achei um absurdo e propus a instalação de uma bomba para reaproveitar a água", relata. "Disse a eles: vocês vão reduzir a conta de água, ficar ecologicamente corretos e nunca mais terão problema."A reação imediata não foi das melhores. Ficaram meio reticentes com a petulância daquele jovem engenheiro. "Se não der certo, vocês não me pagam", disse Alexandre, num xeque-mate certeiro. O sistema funcionou, ele embolsou os R$ 7,5 mil acordados e ainda faturou a confiança do cliente. "Fiz mais de 30 sorveterias do grupo no Brasil." Uma coisa puxa a outra e Alexandre passou a ser contratado para pequenas unidades de outras marcas voltadas para praças de alimentação. Depois restaurantes. E, sim, lojas de grife. Boa parte delas, nos Jardins. Tudo planejado. "Eu queria ser a empresa de referência na execução dessas obras de alto padrão", garante. "Você não imagina o quanto o pessoal gasta por ali. Por menos de R$ 3 mil o m² não se constrói nos Jardins. Tem loja que custou R$ 15 mil o m²".PASSOS TRANQUILOSPaulistano de nascimento, Alexandre foi criado na Granja Viana, em Cotia. Aos 16 anos se mudou com a família para o bairro do Morumbi. Sempre viveu em São Paulo. Cursou Engenharia na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP). Há oito anos se casou e foi morar no Real Parque. Adora esportes. "Pratico wakeboard uma vez por mês, na represa de Piracaia, onde tenho uma casa. E assino esses pacotes para assistir a todos os jogos de futebol pela TV", diz ele, que, a propósito, é palmeirense. Mas, desde que seu filho Felipe nasceu, há pouco mais de um ano, se tornou principalmente pai no tempo livre. "Brinco com ele antes de vir para o trabalho e antes de dormir", conta. "E, nos fins de semana, procuro sempre ir a lugares que sejam bons para crianças."OBRAS E MAIS OBRAS500 é o total de obras já construídas por Alexandre90% delas na cidade de São PauloMais de 80 na nobre região dos Jardins, onde o m² da construção chega a custar R$ 15 mil

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