O eterno deputado agora inferniza a vida da presidente

Henrique Eduardo Alves, líder do PMDB na Câmara

Christiane Samarco e Marcelo de Moraes / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

09 de janeiro de 2011 | 00h00

Ele é filho de uma das oligarquias políticas mais tradicionais do Nordeste - os Alves - e em 2002, quando Dilma Rousseff nem sonhava em disputar uma eleição, já estava no oitavo mandato de deputado federal. Mas o nome de Henrique Eduardo Alves, o líder do PMDB que começou a infernizar a vida de Dilma antes mesmo de ela se sentar na cadeira de presidente, só ganhou projeção nacional por causa de um cargo que ele não ocupou.

Com 67 anos de idade e 40 anos de mandatos consecutivos na Câmara, o líder, que agora assume a função de atirador de elite do PMDB na guerra por cargos contra o PT, só se tornou conhecido no País quando a cúpula do partido impôs seu nome ao PSDB para compor a chapa presidencial de José Serra em 2002.

O deputado despontou na mídia não exatamente pela distinção da vice, mas pelo processo de separação litigiosa. No processo, a disputa com a ex-mulher Mônica Azambuja Alves em torno de contas bancárias no exterior acabou virando notícia e demolindo sua vaga na chapa de Serra.

Até então, Henrique era apenas mais um parlamentar de atuação política apagada e perfil de bon vivant, que sempre figurava nas listas de viagens em missão parlamentar, sobretudo as internacionais.

Jogo do blocão. Foi a briga por cargos com o PT que transformou o "boa praça", de estilo conciliador, em "verbalizador oficial" dos pleitos dos peemedebistas na barganha por espaço de poder.

Nessa luta, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, está na mira como "inimigo número 1 do PMDB", porque assumiu o comando do ministério tomando dois cargos estratégicos e recheados de verbas federais: a Secretaria de Atenção à Saúde e a presidência da Fundação Nacional de Saúde (Funasa).

A declaração de guerra foi feita por Alves em um telefonema a Padilha. "O PMDB da Câmara vai fiscalizar seu ministério e não vamos lhe dar sossego. O partido não abrirá mão de ter o comando da Comissão de Saúde e já escalou o ex-ministro (da Saúde) Saraiva Felipe para isto."

Foi a resposta à "traição" do ministro da Casa Civil, Antonio Palocci (PT). Alves não se conforma por ter aceitado o trato fechado com o ministro petista de não mexer no comando da Embratur, que permaneceria com o PT, em troca de o PMDB manter o controle da Funasa e do Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (Dnocs).

O líder está convencido de que Padilha demitiu os apadrinhados do PMDB com o aval de Palocci.

Não foi a primeira ameaça de dar o troco feita por Henrique depois da vitória da presidente Dilma. Ao perceber que sua movimentação para conquistar a presidência da Câmara neste primeiro biênio do governo Dilma não daria resultado, o líder decidiu montar um "blocão parlamentar" em novembro. Reuniu PR, PP, PTB e PSC, com 199 deputados dispostos a fazer frente ao PT e pressionar o governo que nem sequer havia assumido.

Bem no estilo do morde e assopra, escreveu em seu Twitter que o objetivo da manobra não era o embate com o Palácio do Planalto e o PT. "Este bloco não irá confrontar, e sim organizar o trabalho na Câmara e fora dela na composição do governo", alegou.

A segunda estocada no governo já é consequência da briga pela partilha de cargos. O líder peemedebista decidiu apoiar a discussão por um valor mais elevado do que o governo deseja para o salário mínimo. Em nota oficial, Henrique Alves negou que houvesse relação entre os dois fatos. "Chegou a hora de o plenário debater e votar o salário mínimo", disse na nota.

"Misturar esse tema com a definição de cargos na composição natural do nosso governo é uma absurda e imperdoável irresponsabilidade", garantiu o deputado.

"Meio atabalhoado". Apesar de ser o decano da Câmara, Alves nunca ocupou uma posição de maior relevância na Casa, até o momento em que foi escalado pelo então líder Geddel Vieira Lima (BA) para presidir a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), o primeiro filtro por onde passam todas as propostas apreciadas pelos deputados.

Mesmo depois de assumir a liderança formal da bancada, não foi um líder de plenário ou um tribuno. Continuou cuidando mais das articulações e negociações de bastidor, deixando a operação do plenário para vice-líderes como Eduardo Cunha (RJ) e Mendes Ribeiro (RS). Também não é um formulador.

Os petistas o veem como interlocutor do PMDB, de fato e de direito, mas os líderes do partido o classificam como "um líder meio atabalhoado", capaz de surpreender o governo e o PT com movimentos bruscos. E, precisamente por isso, entendem que ele provoca desconfiança.

Henrique não esconde que procura usar seu trânsito político para aprovar projetos que favoreçam o Rio Grande do Norte. O caso da proposta de construção do aeroporto de São Gonçalo, que pode gerar 30 mil empregos no Estado, é emblemático.

Primeiro, o deputado buscou o apoio do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma, então candidata, para a obra. No seu Twitter, o deputado deixa clara sua ação.

"Como vocês sabem, a construção do aeroporto é uma novela que se arrasta há 10 anos. Foi preciso uma decisão corajosa do presidente Lula e da ex-ministra Dilma para que o modelo de concessão fosse autorizado", postou em 29 de outubro e anunciando que, por isso, Dilma era sua candidata.

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