O fim da linha fica na ''Estação Zumbi''

?Nóias? vagam pelo centro, cheios de cacoetes e sem perspectivas

Bruno Paes Manso, O Estadao de S.Paulo

13 de dezembro de 2008 | 00h00

A pupila sempre dilatada permite reconhecer o usuário do crack pelo olhar perdido. Conhecidos pejorativamente em São Paulo como "nóias", alguns têm falhas no cabelo porque arrancam os fios com a depressão que chega quando falta droga. Entre outros cacoetes, eles mordem os lábios. Uma cena comum é vê-los "ciscando", agachados ou passando os pés pelo chão, como se procurassem uma pedra perdida depois de passar a "brisa" da droga.Vagam pelas ruas sem se preocupar com a sujeira e o mau cheiro decorrente de dias seguidos sem banho. Quando a droga chega, trazida por pequenos traficantes, parte crianças e adolescentes, em panelinhas, nos bolsos ou nas mãos, grandes grupos cercam o vendedor rapidamente, lembrando as cenas de socorro a famintos em locais de grandes desgraças. O passeio pela cracolândia, que atualmente se concentra nas esquinas das Ruas Helvetia e Guaianases, a poucos metros da Sala São Paulo, no centro, é um dos mais tristes da cidade.Na divisão territorial do centro, o lugar é considerado o estágio final pelos próprios meninos e jovens das ruas. A porta de entrada é o Vale do Anhangabaú, com concentração maior de crianças usuárias de cola. Nas Praças da República e da Sé, é possível encontrar grupos misturados - craqueiros que querem dar um tempo ou usuários da pedra que ainda não mergulharam no vício. O fim da linha é a Helvetia, também chamada de "Estação Zumbi" ou "Parque dos Monstros".Para comerciantes e moradores, resta aprender a lidar com a situação. O convívio permite uma relação pacífica, na medida do possível. É comum ver comerciantes esguichando as calçadas para deixá-las sempre molhadas e assim evitar que grupos durmam na frente das lojas. A tática recorrente levou usuários a criar uma gíria própria. Quando há problemas, eles dizem "tá moiado".Educadores testemunham rápidas decadências. Como a de um menino do ensino fundamental que chegou ao fim da linha ainda usando o uniforme limpo da escola. Com o passar dos dias, foi ficando cada vez mais sujo. Não demorou para virar mais um "nóia", irreconhecível depois da transformação.O cachimbo, feito normalmente com a ponta e os canos do isqueiro, é um dos objetos mais valorosos do viciado. Muitos usam o artigo pendurado em cordinhas ao redor do pescoço. Eles têm o hábito de dormir quando amanhece, perto das 5 horas, depois que abre o metrô e aumenta a circulação de pedestres pelo centro. É a forma de diminuir os riscos da noite.A pedofilia é um dos desdobramentos do drama, com meninas, com cara e corpo de criança, se oferecendo na região a qualquer hora do dia. O crack, que nos anos 1990 foi visto como alternativa às seringas para evitar o HIV, hoje mostra resultado diferente. Pesquisa feita com usuários em Campinas aponta índices de 7% de contaminação. Eles fazem sexo sem proteção e em grande quantidade, em busca de alguns trocados para a próxima dose.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.