O fim da terceirização

Parlamentares e governadores que estiveram com a presidente Dilma Rousseff na sequência da demissão de Antonio Palocci fizeram uma leitura comum: ela se convenceu, enfim, de que o exercício da presidência e a articulação política são indissociáveis.

João Bosco Rabello, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2011 | 00h00

Se vai dar certo, só o tempo dirá, comentou um desses interlocutores da presidente, mas ela está fazendo questão de demonstrar ter assumido o papel de líder de seu próprio governo, rompendo com o padrão anterior à crise, de terceirização da negociação com o Congresso.

A decisão, inevitável a quem tem meta de êxito, torna natural o distanciamento do PT, que postula uma hegemonia inconciliável numa aliança em que predominam dois partidos de representações numericamente equivalentes na Câmara e no Senado.

Como ao PT soa como desaforo a imposição pelo governo do equilíbrio na sua base, a decisão da presidente tem o custo político da sabotagem permanente pelo seu próprio partido. O que explica a maior importância do PMDB como parceiro e a sinalização da presidente para a disposição de distensionar o ambiente com a oposição e de costurar uma espécie de aliança pessoal, sem prejuízo daquela formal, construída para elegê-la.

Com todos os riscos, Dilma começa a fazer seu próprio jogo desde a escolha independente das duas ministras que tocarão a articulação política e a gestão interna do governo. A presidente tenta trocar a submissão partidária por autonomia, invertendo a equação: ao invés de liderada quer liderar a aliança.

Ela não parece disposta a confirmar a profecia de José Dirceu de que o seu governo, enfim, será o governo do PT.

A todo vapor

Para os interlocutores da presidente nas duas últimas semanas, não há dúvida: ela está em processo de afirmação política. Além das nomeações de Gleisi Hoffmann para a Casa Civil e de Ideli Salvatti para a articulação política, ela reaproximou-se do PMDB, lançou pontes ao PSDB ao substituir a "herança maldita" pelo reconhecimento do legado de Fernando Henrique Cardoso ao País, assumiu compromissos com a reforma tributária junto a 16 governadores do Norte/Nordeste e já informalizou um canal com o agronegócio em torno do Código Florestal. Nomeou também um adversário visceral do senador José Sarney (PMDB-AP) para a Embratur, Flávio Dino (PT-MA).

Padrão BNDES

Dilma almoçou anteontem na residência do ministro da Agricultura, Wagner Rossi, em Ribeirão Preto,com produtores e parlamentares do agronegócio, inclusive a senadora Kátia Abreu (PSD-TO).Eles vibraram com a redução dos juros de 14% para 6,7%. "Ganhamos tratamento padrão BNDES", disse um deles. Mais rapidez

Na reunião no Alvorada com os 16 governadores do Norte/Nordeste, Dilma foi toda atenção. Vai reduzir o fator indexador das dívidas estaduais e cobrou ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, rapidez no atendimento das demandas. "Ô Mantega, tenho que ter notícias na próxima semana", disse, segundo o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB).

Marina fora

Marina Silva anuncia sua saída do PV nos próximos dias para organizar um movimento nacional pelo meio ambiente, cuja base serão as redes sociais. Ficaram feridas profundas.

Vida real

O governo deve liberar R$ 1 bi até dia 28 se quiser concluir a votação da MP que viabiliza obras da Copa.

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