O homem sem os seus gatos

Quando os Estados Unidos invadiram o Iraque, em 2003, 32 mil palestinos viviam no país. Perseguidos por milícias xiitas, mil deles refugiaram-se no campo de Ruweished, em um trecho de deserto na fronteira com a Jordânia. O campo foi desativado em outubro de 2007. 107 palestinos foram mandados para o Brasil. A vida dessas pessoas, antes e depois da mudança, foi retratada pelo documentário A Chave da Casa, de Stela Grisotti e Paschoal Samora, indicado agora para a mostra competitiva do Festival É Tudo Verdade.Entre o pessoal que estava em Ruweished esperando a hora de embarcar para cá, havia um sujeito sem família, uma senhora gorda e mal-humorada, um homem com seus dois gatos e um senhor triste de bigode. Todos os homens tinham bigode. Mas o bigode do senhor triste, porém, era mais proeminente.A senhora gorda e mal-humorada cultivava no deserto um pequeno jardim. Seu filho tinha morrido em Ruweished. Prestes a vir para o Brasil, considerava "Israel, Índia, América, Brasil, tudo a mesma coisa". Ainda no campo de refugiados, o homem com seus dois gatos sentia saudades de seus gatos. Não sabia com quem deixá-los. O homem triste de bigode dizia: "Nós palestinos crescemos de um exílio a outro, sem conhecermos uma pátria, e sem uma pátria que queira nos conhecer". Ele achava que o palestino era "o Sísifo da sua época".A senhora gorda e mal-humorada vive hoje em Venâncio Aires (RS). Ela parou de rezar porque nunca conseguiu descobrir, a partir dali, a direção de Meca. Ela até perguntou para as pessoas. Mas cada um apontou para um lado. O homem triste de bigode mora em Pelotas (RS). Parte de sua família, inclusive um filho de 9 anos, permanece em Gaza. Ele tenta, a todo custo e sem sucesso, trazê-los para o Brasil. O governo oferece um salário mínimo de ajuda aos refugiados, benefício que deixará de ser pago em outubro. Os demais trabalhos de assistência social acordados com a ONU nunca foram de fato oferecidos. O homem triste de bigode é um veterinário geneticista que jamais conseguiu um emprego. É notável que tenha se transformado num bigodudo feliz.O homem sem os seus dois gatos, no entanto, tornou-se uma triste figura. Isso não está no filme, que termina antes: isolado e sem falar português, é um sujeito que luta pelo direito de ir embora do Brasil, já que tem uma irmã no Egito. Só que refugiado não pode viajar ao exterior, porque legalmente não pertence a lugar algum e não tem passaporte (só o terá depois de dez anos no País). O homem sem os seus dois gatos encontra-se agora acampado em frente ao escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, em Brasília. O Paulo Vanucchi, que deseja importar os presos de Guantánamo, podia dar um pulo lá.

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