Nilton Fukuda/AE
Nilton Fukuda/AE

''O inferno são os outros''

Ao falar ontem de sua saúde, o economista e ex-governador José Serra brincou com a história, corrente entre amigos e jornalistas, de que é um notívago irrecuperável. "Tirando o mau humor das manhãs, a minha saúde é perfeita", disse.

Roldão Arruda, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2010 | 00h00

No mesmo diapasão, contou que, aos 68 anos, tem participado dos eventos da campanha presidencial com uma disposição que nunca teve na vida. E completou com outra observação bem humorada, puxada do universo sartreano: "Não fossem os outros, a campanha seria uma maravilha. O inferno são os outros".

As duas observações ocorreram ao final da entrevista de duas horas de duração. Àquela altura o presidenciável estava tão à vontade que nem parecia o mesmo homem do início do encontro.

Serra chegou à sede do jornal com 25 minutos de atraso. Antes de entrar no auditório ainda conversou com um assessor, por telefone, sobre temas de campanha. O tom de voz era de preocupação.

No início da entrevista, quando se falou sobre a violação do sigilo fiscal de sua filha, ele deu respostas diretas e rápidas e acusou a imprensa de não entender a gravidade do problema. Ao ser perguntado por que demorou a dizer publicamente que é possível estabelecer relações entre o episódio de agora e o do caseiro Francenildo Costa, ele bateu: "Disse naquele dia porque não disse antes. A gente não diz tudo o que diz no futuro no presente, porque aí não existiria futuro nem presente."

O tom mudou quando a pauta virou para a praia da economia. Ali Serra ficou à vontade. Ele expôs de maneira clara suas divergências com a política econômica do atual governo, que estaria levando o País a um vertiginoso processo de desindustrialização. Também abordou de maneira didática, quase professoral, o impacto das altas taxas juros nos gastos públicos; foi corajoso ao dizer que os bancos silenciam diante de certas ações do BNDES porque são beneficiados por elas; citou o economista alemão Ernst Engel ( século 19) ao falar de balança comercial; recorreu às teorias de John Maynard Keynes (século 20) para explicar por que não se deve autorizar o funcionamento de cassinos no Brasil; lembrou o tempo em que ensinou história da economia, desde as teorias econômicas de São Tomás de Aquino (século 13); fez comparações entre as economias do Brasil e de outros países da América Latina; e foi por aí afora.

Conhecimento econômico, na opinião de Serra, será fundamental para o próximo presidente, considerando os desafios que enfrentará. Por esse prisma, ele se considera incomensuravelmente mais bem preparado para o cargo do que a petista Dilma Rousseff. Embora também tenha estudo economia na universidade, ela não assimilou o que foi dito na sala de aula, segundo o tucano: "Sinceramente, a Dilma parece não ter estudado economia."

Serra chegou de helicóptero à sede do Estado. Num traje esportivo, com blazer azul marinho e sem gravata, foi recebido de maneira calorosa pelo prefeito Gilberto Kassab, que não estranhou nem reclamou em nenhum momento do atraso de quase meia hora do convidado.

O prefeito, que faz parte dos quadros do DEM, era o político mais importante presente à entrevista. Nenhum tucano de alta plumagem compareceu. O candidato Geraldo Alckmin, ausente, foi elogiado por Serra.

Exibindo boa disposição e memória afiada, no meio da entrevista, o presidenciável tomou uma dose do energético Red Bull servida por uma de suas assessoras. Durante todo encontro ele evitou ataques diretos ao presidente Lula. Foram poucos. Mostrou-se implacável, no entanto, contra o partido dele, o PT, e sua candidata, Dilma.

Para o ex-governador, o petismo substituiu a ética individual pela ética do grupo, do partido: "Com isso pode fazer ladroagem, violência, afrontar direitos individuais, porque a moral que vale é a do partido - a essência do bolchevismo e do fascismo. O bolchevismo pelo menos tinha a utopia da igualdade."

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