O inverno chegou. Mas eles continuam na rua

Quando a vereadora Aldaíza Sposati assumiu a Secretaria da Assistência Social, no dia 1.º de março, ela fez uma promessa para lá de ousada. Disse que, até o início do inverno, São Paulo não teria mais ninguém morando nas ruas.De tão audacioso, o compromisso beirou o absurdo. A estação fria começou às 10h22 de sexta-feira. E, claro, a cidade continua exibindo milhares de desabrigados em suas calçadas, pontes e barracos de madeira. A secretária argumenta que a declaração feita por ela no dia da posse foi mal entendida: "Eu quis dizer que criaria as condições para tirar os moradores das ruas". Por condições, ela entende o aumento no número de vagas em albergues, hotéis e moradias provisórias. Se fosse só isso, a tarefa da Secretaria da Assistência Social (SAS) estaria quase cumprida. Nos quase quatro meses de gestão de Aldaíza, 1,5 mil vagas foram criadas. Hoje, a cidade conta com 8.063 vagas para cidadãos sem um teto para viver. Segundo pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), existem 8.706 moradores de rua em São Paulo. Por estes dados, o "déficit habitacional" paulistano seria somente de 653 pessoas. O problema é que a pesquisa da Fipe foi feita em 2000. De lá para cá, quantos cidadãos não passaram a engrossar o pelotão de pessoas desabrigadas na cidade? O maior problema enfrentado pela Prefeitura para dar abrigo aos moradores de rua vem sendo a resistência deles mesmos. "Muitos preferem a liberdade e o paternalismo existentes na rua", diz Aldaíza. "As pessoas dão roupa e comida, mas não fazem trabalhos sociais e acabam ajudando a fixar o morador na rua", reclama Marilu André, assessora de comunicação da SAS. Para convencer o morador de rua a ir para os abrigos da Prefeitura, a secretaria diz ter criado 100 equipes com três assistentes sociais cada para percorrer a cidade. Ela cita o exemplo da Rua João Moura, em Pinheiros, na zona oeste. Depois de três meses de conversa, 20 pessoas que viviam lá havia dez anos foram levadas para imóveis alugados pela Prefeitura. No caso de uma senhora que mora com meia dúzia de cães na Avenida Doutor Arnaldo, não há quem consiga convecê-la a mudar-se para um imóvel. "Ela sempre é ajudada. Um dia, apareceu um veterinário, que vacinou os cachorros. No outro, uma clínica deu banho em todos eles. Depois, doaram casinhas. Depois, colchões", conta Marilu. Aldaíza pede que as doações sejam feitas aos albergues. A maioria dos moradores de rua ouvidos pelo JT diz que quer distância dos albergues. Eles contam que, além de serem maltratados, não podem dormir acompanhados, são proibidos de beber e precisam respeitar os horários. "Às 6h, faça frio ou calor, a gente é obrigado a ir embora", reclama José Aparecido Pedroso, de 63 anos, que vive embaixo do Viaduto Alcântara Machado, na Mooca, zona leste da capital. Aldaíza Sposati diz, entretanto, que os horários já mudaram. Os albergues da Prefeitura estão abrindo as portas às 17h e fechando a partir das 8h. Alguns também passaram a funcionar durante o dia. Quanto à bebida, não há o que fazer. "Temos que combater o alcoolismo desta população", diz Aldaíza. Para os casais, a solução são hotéis (nos quais não é permitido cozinhar) e moradias provisórias, que alojam, em média, 12 pessoas. Outra novidade para esse inverno é a decretação de situação de emergência pela prefeita Marta Suplicy caso a temperatura caia para menos de 10 graus. "Não podemos forçar, mas poderemos fazer uma pressão maior para tirar um morador da rua", garante Aldaíza. "Há um limite entre o respeito à liberdade individual e a obrigação do Estado em zelar pelas vidas humanas", completa a secretária. Muito foi feito pela SAS desde que Aldaíza Sposati assumiu a pasta, em março. Dos US$ 13,5 milhões destinados ao Projeto Acolher, US$ 5,5 milhões já foram utilizados. Mas um fato é certo: a promessa de tirar todos os moradores das ruas foi da boca para fora.

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