O jeito é frágil, mas ela gosta de mandar

Nos cinco anos, cinco meses e treze dias à frente do Ministério do Meio Ambiente, Marina Silva deixou entre os auxiliares algumas marcas fortes de sua personalidade e jeito de trabalhar. Quase todas são mantidas agora que é candidata à Presidência pelo PV, principalmente o jeito centralizador. Quando a decisão interessa pessoalmente a Marina, ela é ainda mais centralizadora.

João Domingos e Lígia Formenti, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2010 | 00h00

Por exemplo: a escolha do vice, Guilherme Leal, foi toda dela, que insistiu, insistiu e insistiu até obter do dono da Natura o sim para acompanhá-la na disputa ao Palácio do Planalto. Antes, venceu a resistência do PV, partido no qual ingressou em setembro, que desejava oferecer o cargo de vice a algum partido aliado. Aumentaria assim o tempo de propaganda na TV.

Quando a decisão é administrativa e não a envolve nas costuras finais, Marina costuma não se interessar muito pelo assunto, deixando que um auxiliar cuide da tarefa até o fim.

Uma mostra de que ela só trabalha com gente de sua confiança foi dada quando do desmembramento do Ibama, que foi dividido em dois e deu origem ao Instituto Chico Mendes. Marina pôs na direção dos dois órgãos pessoas de sua absoluta confiança, ambos interinos até a queda de toda a equipe: João Paulo Capobianco no Instituto Chico Mendes e Basileu Margarido no Ibama.

As decisões tomadas pelos dois tinham antes - obrigatoriamente - de passar por ela. Na prática, Marina tornou-se ministra do Meio Ambiente, presidente do Ibama e presidente do Instituto Chico Mendes.

Jeito seringueiro. Marina exerce seu lado centralizador com discrição. Assessores dizem que nunca a viram falando alto, saindo do sério durante uma discussão. Quando divergências apareciam entre integrantes de equipe, sua estratégia preferida era encerrar o encontro para retomar o assunto mais tarde. "Ela conversava com cada um separadamente e tomava, sozinha, a decisão", conta um antigo colaborador. Passada essa etapa, Marina torna-se obstinada. "Ela demora a escolher um caminho. Mas quando a decisão está tomada, dificilmente muda de ideia", diz outro assessor.

Diante de embates nas reuniões ministeriais, Marina também preferia o distanciamento. "Ela repete a atitude do seringueiro. Fecha-se quando sente alguma ameaça. E espera o momento certo para agir", conta o antigo colaborador. Mais do que simples estratégia, a atitude era considerada por seus colegas de ministério como falta de disposição para negociar. "No quesito carisma, nota máxima. Mas na diplomacia, nota abaixo da média."

Em vez de tentar convencer os colegas, Marina recorria diretamente ao presidente Lula. Com ele, sentia-se à vontade para expor suas convicções. Consta ainda que, embora tenha engolido sapos empurrados goela abaixo pelo presidente, como a autorização para plantio e comercialização da soja transgênica e a licença para as usinas do Rio Madeira, não se dava por vencida. Punha uma pastinha sob o braço e só saía da Presidência depois de arrancar alguma promessa de Lula. Mesmo que não fosse cumprida.

Tática. Um assessor lembra da grande dificuldade existente no início de governo para a criação das chamadas Unidades de Conservação. "Quando uma data importante se aproximava, Marina ia até o Planalto, convencia o presidente e de lá saía vitoriosa, com uma concessão ou outra." Mas, com o tempo, ministros descobriram a tática e, em retaliação, conseguiram criar uma série de empecilhos para criação dessas unidades. "Resultado: hoje, é preciso que Deus e o mundo concorde com a criação de uma Unidade de Conservação."

Pessoas próximas são unânimes ao apontar o ponto fraco de Marina: as críticas. Embora exale simplicidade, ela adora ser cultuada. "Ela não esconde a mágoa diante dos ataques. Um sentimento que às vezes ela carrega por muito tempo", dizem amigos que convivem com ela no Senado.

Há outra prática de Marina, muito comentada por quem trabalhou com ela. Protestante da Igreja Assembleia de Deus - a maior igreja pentecostal do País, com cerca de 8,5 milhões de fiéis segundo o censo do IBGE de 2000 -, Marina costumava não só participar, mas chamar os mais próximos para também orar nos cultos feitos dentro do prédio do ministério.

Nesses cultos as pessoas tinham de se mostrar arrependidas de seus pecados, simulando jogá-los fora. A partir daí, era como se tivessem renascido purificados. Tudo o que haviam feito no passado estava perdoado.

Animais e políticos. Apesar da saúde frágil, Marina impressiona pela grande capacidade de trabalho. Por causa dos problemas de saúde, os horários das refeições sempre são respeitados. "Ela leva uma rotina espartana: hábitos simples, vida regrada."

Ao lado de todo o rigor e recato, há também uma Marina bem-humorada. "Ela não conta piadas, são mais anedotas de salão", diverte-se um assessor. Um grupo seleto pôde presenciar algumas vezes também comentários ácidos da ex-ministra, com um quê de humor inglês.

Privilegiados já puderam folhear um livro que a candidata do PV prepara, comparando políticos conhecidos a animais da amazônia. "São textos curtos, em que ela associa o temperamento e a personalidade dos colegas aos dos animais", relata um amigo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.