Serhii Nuzhnenko/Reuters - 2/3/2022
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O Jogo da Morte

A partida que entrou para a história na Ucrânia ocupada pelos nazistas

André Fran, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2022 | 10h00

Se a história nos apresenta uma lição fundamental é a de que ela se repete. E a Guerra na Ucrânia nos faz lembrar ecos do passado o tempo todo. A máxima serve para revelar análises mais profundas, que comparam a expansão da Alemanha nazista na década de 30, quando democracias estabelecidas demoraram a acreditar nas ambições de um lunático autoritário, com os devaneios terrivelmente ambicosos de Putin e sua “grande Rússia”, que pegaram grande parte do mundo de surpresa. Mas também pode ser aplicada a relatos mais pitorescos de heroísmo e bravura em meio ao caos e violência. Um desses relatos ganhou contornos de lenda, com direito a reportagens históricas, livros premiados e um filme estrelando um elenco inusitado com nomes do porte de Sylvester Stallone e Pelé. 

O Jogo da Morte, como ficou conhecido, foi uma partida de futebol disputada entre ucranianos e nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1941, o exército alemão avançava pela Europa lutando em diversos fronts, como França, Grã-Bretanha e Norte da África, mas a grande obsessão de Hitler era a União Soviética. A Operação Barbarossa havia começado em Junho daquele ano e, em poucos meses, as forças do Terceiro Reich já haviam tomado praticamente toda a região da Ucrânia e avançavam para Moscou.  De início, alguns ucranianos receberam o exército alemão como libertadores, mas a realidade logo se impôs quando Hitler dividiu a então república soviética e passou a implementar suas “políticas raciais”. Mais de 4 milhões de judeus ucranianos foram mortos pelos nazistas. Somente em Kyiv, mais de 30 mil pessoas foram mortas em dois dias.

Alguns dizem que esporte e política não se misturam, mas foi nesse cenário que uma das partidas de futebol mais famosas da história se desenrolou. Kyiv tinha recentemente sido escolhida como capital da república (posto que antes pertencia a cidade de Kharkiv) e o Dynamo de Kyiv, a principal equipe do futebol local, vivia grande fase, disputando títulos e recheada de craques. Mas foi justamente no dia da reinauguração do belo Estádio Esportivo da República, a casa da equipe do Dynamo, que teve início a invasão alemã.  Na cidade ocupada pelos nazistas em pouco tempo, a violência era regra. Aqueles que não eram executados de forma cruel seguiam para campos de concentração tão terríveis que há relatos de prisioneiros se alimentando de cascas de árvores, esterco de gado ou tendo que recorrer ao canibalismo.  Dentro de seu plano estratégico, os nazistas passaram a usar a capital como base operacional e utilizar trabalho forçado ucraniano para seus fins. Muitos desses trabalhadores foram alocados nas várias padarias da cidade, produzindo pães para abastecer as tropas alemãs. Joseph Ivanovich Kordik, era um checo responsável pela famosa “Padaria número 1” da cidade e torcedor fanático pelo do Dynamo de Kyiv. Certo dia, caminhando pelas ruas próximas ao seu trabalho, Kordic reconheceu um ucraniano maltrapilho que havia conseguido deixar recentemente o terrível campo de concentração em Darnitsa. Era Nikolai Trusevich, o goleiro titular do seu clube do coração. O atleta foi convidado a trabalhar e morar na Padaria onde encontrou vários outros jogadores de futebol. Percebendo que Kordik escolhia seus funcionários mais pela boa e velha resenha esportiva do que pelos dotes como panificadores, Nikolai aproveitou a oportunidade para indicar a contratação de vários de seus antigos colegas de time. Ter um teto, comida e segurança naquela época era privilégio para poucos. Em pouco tempo, a “Padaria número 1”, que podia não ter os melhores pães da Ucrânia, com certeza tinha os padeiros mais bons de bola.

Se tinha uma coisa que unia alemães e soviéticos naquele momento era a paixão pelo futebol. De modo que, com a ocupação mais estabelecida, algumas partidas e campeonatos informais passaram a ser organizados na região. Os craques da “Número 1” não podiam ficar de fora, e fundaram o FC Start, batizado com a esperança de um novo começo para suas vidas e seu país. O recém-formado time começou a se destacar vencendo com autoridade seus jogos. Os jogadores lutavam para conquistar nos campos a vitória que parecia impossível na guerra. Pouco a pouco, as vitórias do Start começaram a empolgar os torcedores soviéticos. As autoridades responsáveis pela ocupação nazista tentavam fazer vista grossa para aquele improvável símbolo de resistência até que as derrotas alemães com a bola nos pés se tornaram uma analogia real demais para os reveses da Alemanha no front de batalha. Era preciso dar um basta. E na bola. Já que não seria boa ideia criar mártires àquela altura da investida nazista.

Para “combater” em campo o FC Start, a ocupação convocou o time do Flakelf, composto pelos melhores futebolistas entre os membros de sua bateria antiaérea (flak: artilharia de defesa aérea, elf: onze).  A primeira partida disputada entre os dois times terminou em um acachapante 5 x 1 para o “time da casa”. Os alemães exigiram revanche. E foi esse segundo confronto que ficou conhecido como “O Jogo da Morte”. 

No dia 9 de agosto de 1942, o Start enfrentou o Flakelf no antigo estádio do Zenit, diante de um público de aproximadamente duas mil pessoas. A partida foi apitada por um oficial da Schutzstaffel, a aterrorizante força paramilitar nazista. Durante a apresentação das equipes, o escrete do Start se recusou a fazer a tradicional saudação nazista, uma formalidade “recomendada” pelos responsáveis pelo jogo. Com a bola rolando, logo nos primeiros minutos o Flakelf mostrou a que veio. Foram vários lances violentos até que, em uma disputa de bola na pequena área, um jogador alemão acerta um chute na cabeça do goleiro Trusevich,que fica desacordado por vários minutos. Aproveitando o momento, o time alemão consegue abrir o placar. O aguerrido time dos ucranianos consegue virar o jogo ainda no primeiro tempo, que termina em 3 a 1. A alegria do time do Start acabou antes mesmo do início da etapa complementar. Ainda no vestiário, um oficial da SS alemã cumprimenta os jogadores e informa educadamente que eles não poderiam vencer aquela partida ou sofreriam consequências. A equipe voltou com outro semblante e em ritmo bem mais lento no segundo tempo. Mas, ainda assim, o medo das ameaças não foi o suficiente para conter sua sede de vitória. O jogo estava 5 a 3 para os contrariados membros da equipe da Padaria número 1 quando seu principal zagueiro driblou praticamente o time alemão inteiro, o goleiro e, ao se deparar com o gol completamente vazio, virou de costas e atrasou a bola para seu campo de defesa. A humilhação foi tamanha que oficiais alemães decidiram encerrar a partida antes mesmo dos 90 minutos regulamentares. Parece que ali, o destino do FC Start já estava traçado. E seus jogadores já sabiam disso pois, para estranheza do público presente, não comemoraram sua histórica vitória.

Uma semana após a partida fatal, membros da Gestapo invadiram a “Padaria número 1” levando presos os jogadores do Start. Um deles, que tinha ligações com a NKVD, que tempos depois viria a se tornar a KGB, a agência de segurança soviética, foi torturado e morto ali mesmo. Outros foram condenados a encarar os horrores do campo de concentração de Siretz, onde morreram centenas de soviéticos. Entre os jogadores que passaram por essa provação, estava o goleiro Nikolai Trusevich. Ele seguiu como líder de sua equipe, incentivando e tentando levantar a moral de seus companheiros até seus últimos momentos.  Dois membros da equipe conseguiram escapar do campo a tempo, mas Trusevich e outros dois jogadores foram fuzilados em fevereiro de 1943 quando os oficiais alemães passaram a executar prisioneiros aleatoriamente ao perceber que a derrota alemã era iminente. Os soviéticos conseguiram retomar o controle de Kyiv apenas alguns meses depois. Muitas versões foram contadas sobre o histórico jogo da morte. A partida foi escondida dos registros alemães e distorcida pela propaganda soviética. Mas os relatos das poucas testemunhas e sobreviventes daqueles tristes tempos são unânimes em garantir que foi mesmo um jogo de entrar para a história. 

 

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