O jovem que conquistou Caetano

Fernando Andrade mostra o bom humor do músico em documentário que estréia na 6.ª

Valéria França, O Estadao de S.Paulo

18 Julho 2009 | 00h00

Ele tem cara de adolescente, apesar de seus 28 anos de idade. De camiseta e tênis, na semana passada, o diretor estreante Fernando Andrade surgiu ao lado de Caetano Veloso na pré-estreia de Coração Vagabundo, documentário sobre a turnê do CD A Foreign Sound - um filme que levou cinco anos para chegar às telas de cinema. Na sexta-feira, entra em circuito comercial em São Paulo e no Rio, e Fernando deixa de ser um anônimo para o público em geral. Sua vida deve tomar outro rumo. "Vai mudar alguma coisa?", pergunta. "Então acho que a ficha ainda não caiu." Atualmente, Fernando está preocupado apenas em pagar as contas - de casa e da agência de publicidade, a Spray, que montou na Vila Olímpia, em São Paulo, há seis meses, com um amigo do tempo da escola, Fernando Menocci. E não admite atrasos para reuniões. Fica ansioso, mal-humorado mesmo, só em pensar na possibilidade de fazer um cliente esperar. Coração Vagabundo parece ser só mais um trabalho. "Ele não tem a dimensão do que realizou. É muito jovem", diz Raul Dória, de 46 anos, um dos produtores do filme e sócio da Cine, onde Fernando trabalhou nos últimos cinco anos. "O Caetano é um mito para a minha geração e não para o Fernando. Caetano percebeu isso." O resultado é um registro diferente, uma versão humanizada de um mito. "Nunca me senti constrangido com a presença de Fernando e da câmera", conta Caetano. "Às vezes, posso ter achado que ele era muito fominha, muito louco para fazer filmes. Depois achei as perguntas que ele ia me fazendo muito reais: ele de fato queria saber aquilo. No fim, o filme ficou bonito, divertido e instrutivo." Fominha é a palavra certa. "Ele está sempre ansioso, com olhos de quem quer aprender sobre o universo do outro", diz Paulo Lima, de 47 anos, dono da Editora Trip. Ele conheceu Fernando ainda aluno do Colégio Santa Cruz, no Alto de Pinheiros. Paulo era inicialmente amigo de seu meio-irmão, o apresentador Luciano Huck. Um dia, Fernando pediu apoio para a revista que estava montando no colégio. "Conseguiu que um fotógrafo da editora fizesse um ensaio sensual das meninas do colégio para a revista", conta Fernando. Quando a edição foi distribuída, veio a decepção. "Metade do colégio odiou. Fizeram fogueira com as revistas." Filho do jornalista Mario de Andrade, diretor da revista Playboy na década de1980, época gloriosa da publicação, Fernando sempre conviveu com a nata do jornalismo. O pai morreu quando tinha 10 anos. Não lhe faltaram apoio e portas abertas. Aos 15 anos, na areia de uma praia do litoral norte, ele barganhou seu primeiro emprego. Um amigo do irmão queria usar seu quadriciclo. Ele deixou em troca de um estágio na DM9. "A agência estava no auge. Eu xerocava muita coisa, mas lia tudo. Aprendi muito." Resolveu fazer Administração na Fundação Getúlio Vargas - especializou-se em Estratégia - e paralelamente cursou Cinema nos Estados Unidos. E o trabalho de conclusão de curso da faculdade, o curta De Morango, ele distribuiu para as 20 maiores produtoras nacionais. "Só Paula Lavigne me respondeu. E me chamou para filmar videoclipe, com roteiro de Guel Arraes, da música Você Não Me Ensinou a Te Esquecer, tema do filme Lisbela e o Prisioneiro, com Caetano." Com dois trabalhos na mão, Fernando bateu na porta da Cine. "Nunca tinha ouvido falar dele e gostei do trabalho e da postura. Ninguém me liga assim diretamente", conta Raul Dória. A Natasha Filmes, produtora de Paula, ligou para a Cine pedindo para que filmassem o DVD do CD de A Foreign Sound, que seria na Sala São Paulo, no centro da cidade. "Caetano decidiu realizar um ensaio do DVD num show no Baretto (no Hotel Fasano). Como Fernando tinha trabalhado com ele, achei que seria o mais indicado." Sem conseguir dia livre na Sala São Paulo, o músico resolveu fazer o DVD durante uma turnê. O trabalho exigia uma disponibilidade de agenda que nenhum medalhão da área teria. Fernando poderia viajar por tempo indeterminado. Foi aos Estados Unidos e ao Japão e, mais tarde, à Espanha e à Itália, onde entrevistou os diretores Pedro Almodóvar e Michelangelo Antonioni. "Ele trouxe 57 horas de um material tão surpreendente que tinha de virar filme. No início tivemos resistência, principalmente da Paula. O documentário traz lembranças do tempo em que eram casados, imagens dolorosas para ela. Por isso, demorou cinco anos para sair. "

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