O ''lulômetro'' de Dilma

Na campanha presidencial de 1960, Jânio Quadros repetia sempre o mesmo discurso moralizador em todos os comícios pelas capitais do País. Seu candidato a vice e 17 anos mais velho, o senador Milton Campos lançava um improviso diferente a cada parada da comitiva.

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

11 Abril 2011 | 00h00

Querendo ser simpático com o companheiro que mais tarde trairia, Jânio puxou conversa com o vice. Demonstrou admiração com a capacidade inventiva do mineiro, sempre inovando o tema dos discursos. E Campos: "Não é imaginação, meu filho; é falta de memória mesmo".

A presidente Dilma Rousseff está mais para Milton Campos do que para Jânio Quadros: especializa-se em moldar as palavras de acordo com a audiência. Não por falta de memória, mas por pragmatismo.

Foram 33 pronunciamentos oficiais no figurino de presidente. Entre as palavras mais usadas, destacam-se "Brasil" e "país". Em terceiro lugar vem "todos", depois "governo" e "grande". São todos lugares-comuns nos discursos de qualquer presidente. Excluídos, abrem espaço para os termos que diferenciam um governante do outro.

Dilma usa mais "mulheres" e "brasileiras" do que o antecessor. Pode parecer óbvio, mas não é. Ela intensificou as referências femininas desde a posse.

Apesar de entrar na história como 1.ª "presidenta" do País, durante toda a campanha eleitoral ela teve mais dificuldades para conquistar o voto feminino do que o masculino. A ênfase agora nas mulheres reforça sua identidade e é estratégica para sua popularidade.

De Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma aprendeu que, ao menos no discurso, "gente" e "povo" são mais importantes do que "milhões" e "bilhões". Sua fala depois de eleita é mais "humana" e menos cifrada.

O melhor indicador do pragmatismo discursivo de Dilma é o emprego que faz da palavra-chave de sua eleição: "Lula". Na campanha, ela usou o nome do patrono tanto quanto pode, para alavancar votos. Depois de eleita, a referência ao antecessor é recorrente, mas seletiva.

Nos seus 33 pronunciamentos presidenciais, Dilma falou o nome de Lula 58 vezes. A média de quase duas menções por discurso afasta insinuações de ingratidão ou de distanciamento entre criador e criatura.

Mas toda média omite detalhes reveladores. Nas duas vezes que foi ao Nordeste e discursou, Dilma esbanjou citações ao padrinho. Seu recorde foram nove "Lulas" ao falar durante o fórum de governadores nordestinos em Aracaju, em 21 de fevereiro.

Pouco mais de uma semana depois, de volta à região, Dilma tascou seis "Lulas" em um discurso em Irecê, na Bahia, e, horas mais tarde, em Salvador, repetiu o nome do antecessor três vezes. Em nenhum outro lugar do Brasil Lula é mais admirado do que no Nordeste.

Mas em um terço dos seus discursos, Dilma preferiu não mencionar Lula. A presidente silenciou sobre Lula em outras situações onde era estratégico demonstrar independência: no seu primeiro pronunciamento em cadeia de rádio e TV, ao discursar no aniversário de 90 anos do jornal Folha de S.Paulo e ao receber a ordem do mérito das Forças Armadas.

O "lulômetro" de Dilma é a contrapartida do "dilmômetro" de Lula. Entre 2009 e 2010, a intenção de voto em Dilma cresceu na proporção que o então presidente repetia mais vezes o nome de sua candidata. Agora, pode ser um termômetro da relação dos dois. Por ora, indica estabilidade e pragmatismo..

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