O maestro da metrópole

Livio Tragtenberg tem uma orquestra com artistas de rua e rege músicos cegos para trilhas de cinema mudo

Edison Veiga, O Estadao de S.Paulo

27 de junho de 2009 | 00h00

Terça-feira à tarde, em um café do bairro de Perdizes. Calma e baixa, a voz do maestro quase some em meio ao ruído que vem da rua - carros, passos, conversas - e das mesas vizinhas - talheres, xícaras, arrasto de cadeiras, mais conversas. Ele parece não se incomodar. Com a ajuda do laptop, vai relembrando e contando as histórias de seus projetos musicais, um mais inusitado que o outro. Um deles, exibido mais de 15 vezes nos últimos 12 anos - até mesmo no auditório do Museu do Louvre, em Paris -, será apresentado amanhã, às 21 horas, no Theatro São Pedro, na Barra Funda. E tem tudo a ver com a barulheira danada que serviu de pano de fundo do encontro do maestro com a reportagem do Estado.Vamos aos nomes dos personagens. A cidade, óbvio, é São Paulo. Que protagoniza, em versão habitada por apenas "1.059.000 de almas", um histórico documentário de 1929 chamado São Paulo, a Symphonia da Metrópole, de Rudolpho Lusting e Adalberto Kemeny. Cinema mudo, como é de supor - embora o primeiro filme falado, O Cantor de Jazz, seja de 1927, o formato só se consagrou mesmo nos anos 30. Na época, os filmes costumavam ser acompanhados por orquestras ou uma sequência de gravações. Não há registros sobre qual era a trilha original de A Symphonia da Metrópole. Em 1997, quando a Cinemateca Brasileira resolveu restaurar o filme, chamou uma dupla de músicos para se encarregar de novas composições: Wilson Sukorski e Livio Tragtenberg. Livio é o maestro da metrópole, profundamente identificado com o caos urbano, capaz de perceber - e promover - a arte da barulheira cotidiana, dos músicos de rua, dos artistas cegos e até dos assovios despretensiosos. "Isso é um barato", resume.Nascido em 1961 em Pinheiros e criado no Butantã, o músico cresceu em um ambiente culturalmente estimulante. Sua mãe é a atriz Beatriz Tragtenberg. Seu pai, o sociólogo Maurício Tragtenberg (morto em 1998), foi mordaz crítico do ensino convencional. Autor de obras como A Delinquência Acadêmica e Burocracia e Ideologia, não se surpreendeu quando o filho decidiu abandonar o colégio, no segundo ano do ensino médio. Livio estudava no Equipe e era colega de turma de Marcelo Fromer e Branco Melo - mais tarde, integrantes do grupo Titãs - e dos futuros cineastas Roberto Moreira e Tata Amaral, entre outros. "Imagina a zona que era aquilo, uma porra-louquice", lembra. "Quis partir para a música e decidi estudar sozinho."Não era a primeira vez que o autodidatismo herdado do pai se manifestava. Quando começou a se interessar por partituras e instrumentos, aos 13 anos, costumava ler teoria musical no trólebus que ligava, nos anos 70, o Largo de Pinheiros ao Largo de São José do Belém, no bairro do Belenzinho. "Meus avós moravam lá e eu fazia esse trajeto com frequência", conta. "Demorava mais de uma hora. Aprendi música assim."Logo após abandonar o colégio, decidiu sair de casa. Instalou-se em Perdizes - bairro onde vive até hoje - e passou a fazer trilhas sonoras para o cinema. "Comecei com curtas. Depois foram surgindo convites e um trabalho foi puxando outro", recorda-se. Gravou seu primeiro disco, Ritual, em 1980. "Cheguei até a tocar em barzinhos, mas não aguentei. Não era a minha", relata. "Com o LP, comecei a me situar, colocando minha linha experimental de trabalho." Na esteira, vieram outros discos - já são 16; o último, Lucila Tragtenberg, Voz, Verso e Avesso, em parceria com a irmã Lucila, deve ser lançado no segundo semestre - e trilhas para inúmeros filmes, como Um Céu de Estrelas (1996), Através da Janela (2000) e Brava Gente Brasileira (2000).RUA, IRONIA E RABISCOS Depois de 20 anos observando o trabalho dos anônimos músicos de rua da cidade, em 2004 Livio conseguiu montar uma orquestra deles. Nascia o Neuropolis. "São 14 integrantes. Levei duas semanas para achar todos e formar a cara sonora da cidade", diz. "Não é um trabalho social, não vim para tirar ninguém da rua. É um trabalho musical: eles ganham cachês e são tratados como profissionais. Não faço ?Ong music?." O conceito deu tão certo que ganhou réplicas, coordenadas por Livio, em Miami, Berlim e no Rio - nesta ordem. "Agora, vou levar para Bruxelas", comemora. O Neuropolis teve dois desdobramentos: o Som do Meio Fio (versão reduzida do grupo, com sete integrantes) e a Blind Sound Orchestra. "O artista cego é uma tradição das ruas", justifica, sobre a Blind Sound. São três músicos - dois sanfoneiros e um violonista - que atuam com Livio em trilhas sonoras de filmes mudos.Isso porque, desde 2007, o maestro é o curador da Jornada Brasileira de Cinema Silencioso, promovida pela Cinemateca. "Por que não músico cego tocando em filme mudo? Tive a ideia pois assim as coisas não se completam", explica. "Quem completa o ato audiovisual é o espectador." A próxima empreitada do maestro deve ser uma orquestra sem instrumentos. "Será a orquestra dos assobiadores de São Paulo", revela. "Interessa-me muito essa coisa da música na prática da vida diária."Enquanto isso, exemplo máximo de ironia, Livio dedica-se a organizar novos cursos de graduação, de Música, a serem oferecido pela Pontifícia Universidade Católica (PUC). Sim, ele que nem sequer completou o ensino médio... "Entrei pela primeira vez em uma sala de aula de música como professor", afirma. Foi na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde lecionou de 1990 a 1998.Academia à parte, ele continua defendendo a liberdade criativa. Principalmente dentro de casa. Seu filho Henrique, de 6 anos, "fez arte": rabiscou todas as paredes e colou um desenho na porta da sala. "Acho legal deixá-lo à vontade. A criança tem de se soltar mesmo", acredita. "Depois você vai explicando." O maestro garante que já combinou com o garoto: após a próxima pintura do apartamento, desenhar só vai poder no papel.

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