O mais longo cerco da história da PM

Policial bateu na porta para retomar negociação com jovem que detinha ex-namorada em CDHU de Santo André

Marcela Spinosa, José Dacauaziliquá, Daniela do Canto, Josmar Jozino e Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

16 Outubro 2008 | 00h00

A Polícia Militar de São Paulo executava, no início da madrugada, a mais longa negociação de sua história, envolvendo um caso de cárcere privado, em um prédio da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), no Jardim Santo André, em Santo André. À 0h30, Lindembergue Fernandes Alves, de 22 anos, mantinha refém a ex-namorada, Eloá, de 15 anos, havia 59 horas. Os dois romperam no mês passado e ela recusou os pedidos para que retomassem o relacionamento. O caso mais longo anterior ocorreu em 2007. >Cobertura online e todas as notícias sobre o seqüestro Por telefone, num programa de TV, Eloá pediu ontem aos PMs que não tomassem nenhuma ação enérgica. "Ele está calmo. Eu estou bem. Mas minha vida está agora nas mãos dos policiais." Alves deixou de atender as ligações de PMs para seu celular na noite anterior, após ter soltado a estudante Nayara - ela e outros dois colegas foram dominados, ao lado de Eloá, às 13h30 de segunda-feira. Policiais do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) chegaram a tocar a campainha do apartamento, às 8 horas, porque o comandante do Policiamento de Choque, coronel Eduardo José Félix, temia que a garota estivesse morta. O invasor ameaçou atirar, como havia feito quatro vezes na terça-feira. As negociações foram retomadas em clima tenso. Eloá apareceu quatro vezes na janela - numa delas, às 12h15, para puxar uma marmita por uma corda de lençol. De acordo com o comandante, o seqüestrador conversou com os negociadores às 14 horas e disse que iria se entregar sem ferir a ex-namorada. Mas, depois de uma entrevista a uma TV, "mudou de idéia e disse que iria se entregar no seu tempo, quando estivesse preparado" (mais informações na página C4). A polícia informou que Alves chorava durante todos os contatos: estava arrependido. A irmã dele, Susi Alves, de 26 anos, esperou o dia todo pelo fim do seqüestro. "Se pudesse, falaria para ele se entregar. Nós (a mãe e as duas irmãs) estamos sofrendo muito." Ontem, Nayara, de 15 anos, libertada às 22h50 de anteontem, prestou depoimento no 6º DP por sete horas. Segundo seus pais, a menina "está bem e mais calma, mas vai ser difícil relaxar até que tudo termine". A jovem e os dois colegas mantidos como reféns confirmaram que Alves seqüestrou Eloá só porque queria se reaproximar dela. Os moradores do bloco 24 do CDHU, cercado pela PM, foram orientados pela polícia a não deixar o local e também viraram "reféns" da situação. Do lado de fora, só se observavam moradores circulando pelas escadas e nas janelas. Ninguém podia entrar nem sair. Nos prédios ao lado, até as garagens estavam "interditadas". Policiais do Gate estavam posicionados estrategicamente nas escadas e dentro dos apartamentos. Um jovem que mora ao lado do apartamento de Eloá, com os pais e a irmã mais nova, contou que a família só come, dorme e assiste a programas de TV. "Ouço ela gritando e pedindo para ele parar." O momento mais tenso foi quando se ouviu o barulho de tiros ao lado. "Estava no corredor e saí correndo. Nosso maior medo é de que a polícia invada a casa dela e tudo acabe em tragédia." O rapaz só se sente tranqüilo à noite, quando a família vai dormir e PMs ficam em seu apartamento. "Vai saber o que ele (Alves) pode fazer." Mas ficar em casa cria problemas. "Temos de pedir para as pessoas que passam do lado de fora para comprar comida." Os mantimentos eram amarrados em uma corda e puxados para cima. O CDHU é, segundo a polícia, uma das áreas mais perigosas de Santo André. Um morador relatou ter receio de represálias de traficantes. "Eles não perdoam porque estão tendo prejuízo com essa movimentação." OUTROS CASOS Março de 2007: Depois de 56 horas de tensão, o assaltante Gleison Flávio Salles, de 23 anos, que havia feito três crianças e a mãe delas reféns em Campinas, foi preso pela polícia. As vítimas foram libertadas. O assaltante havia libertado uma das crianças uma hora antes de ser preso e outra já no primeiro dia. Na época, a polícia informou que aquele era o mais longo caso de cárcere privado já registrado na história do Estado de São Paulo Outubro de 2006: O marceneiro Gilberto Gomes de Lima manteve a mulher e a amante, grávida, em cárcere privado por 30 horas, em uma garagem em Cidade Tiradentes, na zona leste de São Paulo. O desfecho do caso foi sangrento: Lima, que manteve as mulheres sob a mira de um revólver durante todo o tempo, matou a amante e se suicidou em seguida. A polícia, que cercava o local, invadiu a garagem após ouvir os quatro disparos

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