O medo de morar em Moema

É como assistir à mesma cena 20 vezes por hora ou 400 vezes por dia e, ainda assim, sentir o mesmo aperto no coração. "O meu prédio fica na rota dos aviões que descem e sobem em Congonhas. Eles passam bem pertinho da gente, em intervalos de três minutos. Sempre parece que vão se chocar contra o edifício", conta Mara Cristina Velasco Romano, 43 anos, moradora do bairro de Moema, na zona sul, há mais de 10 anos. Morar na rota dos aviões é viver em constante alerta. Mara diz que já se surpreendeu fazendo planos para quando um deles atingir o prédio. Com a tragédia de terça-feira, Mara também não descarta a possibilidade de sair de Moema. "Acho que a única solução é destruir esse aeroporto e transformá-lo em um parque. Do contrário, o jeito é mudar mesmo", disse. O pior dia para os moradores da região é o domingo à noite. "Daí, é um sofrimento. A gente dorme mal", afirma o empresário Alexandre Pinheiro, de 40 anos. "Acho que agora é a hora de alguém criar um abaixo-assinado para tirar o aeroporto daqui. É um absurdo um aeroporto desse tamanho em uma área central", completa. Depois de Moema, o bairro que está mais próximo do aeroporto é o Campo Belo (foi ali que o acidente com a aeronave da TAM ocorreu). Hoje, residem no local cerca de 59 mil pessoas, mas a projeção para 2010 é que a população local seja de pouco mais de 52 mil. Segundo o historiador e pesquisador Sérgio Weber, autor de um livro sobre a história de Campo Belo, nos últimos dez anos a população caiu, em média, 6% no bairro. O motivo do êxodo é o Aeroporto de Congonhas. O corretor de imóveis Carlos Varoli, da M2 Imobiliária, conta que tenta vender, há mais de um ano, um apartamento na Rua Baronesa de Bela Vista, paralela à Av. Washington Luís, praticamente vizinho ao local do acidente do avião Airbus A-320 da TAM. "Se você conhecer o apartamento, não acredita. Tem 142 m² de área, nunca teve dono, tem três vagas na garagem, elevador panorâmico e quatro quartos", descreve o corretor Varoli. Segundo ele, o imóvel está pela metade do preço, pois não há interesse do público por conta da localização. "Se fosse no miolo de Campo Belo ou Moema, fora do trecho de pouso do aeroporto, valeria o dobro." Quem já reside no Campo Belo até que tenta se acostumar com o sobe e desce de aviões. "A gente não se importa com o barulho... O que deixa o povo daqui à beira de um ataque de nervos é a possibilidade de um avião cair sobre nossas cabeças. Quem agüenta viver com essa expectativa?", disse Clarice Oliveira.

Gilberto Amendola e Camilla Haddad, SÃO PAULO, O Estadao de S.Paulo

21 Julho 2007 | 00h00

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