O menino de Mestre Valentim perde o posto na fonte carioca

Duzentos e vinte anos após ser instalada no Passeio Público, o mais antigo parque urbano do País, a escultura de um menino em chumbo maciço de Mestre Valentim, um dos principais artistas do período colonial, foi retirada hoje da Fonte dos Amores e levada para um depósito por causa do risco de roubo. Os técnicos da prefeitura demoraram sete horas para conseguir remover a peça, uma das mais importantes do escultor, que pesa aproximadamente 200 quilos e já teve os braços arrancados.Na madrugada de ontem, três homens armados renderam o vigia e roubaram duas obras de bronze do parque, um busto emhomenagem a Valentim de 1913, centenário de sua morte, e outro da escritora Júlia Lopes de Almeida, de 1938. Em reportagempublicada em setembro, o Estado mostrou a situação de abandono e a falta de segurança no Passeio. Na ocasião, o Instituto do atrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) recomendou a retirada das obras de Valentim do parque, administrado pela prefeitura. No entanto, o chafariz dos jacarés, uma das obras mais conhecidas do artista, foi mantido no Passeio. Nem mesmo o Iphan possui réplicas das esculturas.Além da estátua do menino, a Fundação Parques e Jardins (FPJ) retirou 10 bustos de bronze que ornamentavam o Passeio,mas ainda restam cerca de 20 obras nos jardins. De acordo com a diretora da divisão de Chafarizes e Monumentos da FPJ, VeraDias, ?não há necessidade? de retirar os jacarés porque a peça ?está bem presa?. ?Retiramos o menino para evitar maisproblemas, mas a obra vai voltar após a reforma do parque, que vai durar sete meses?, disse ela. Vera confirmou que a estátua,instalada em 1783, quando o Passeio foi inaugurado, nunca havia saído do parque.O engenheiro Emílio Giannelli, de 52 anos, que há 30 trabalha com restauração, foi contratado pela prefeitura para acompanhararetirada da obra, que precisou de cinco homens para ser carregada. Ele já havia restaurado os braços do menino, roubados em 1994, que seguravam uma faixa com a frase ?Sou útil ainda brincando?. No início do ano passado, eles foram roubadosnovamente. ?Demoramos sete horas para retirar porque a fixação era original, com chumbo, e o trabalho foi todo manual, para nãodanificar a peça.? Ele disse que é uma das obras mais importantes que já restaurou. A peça tinha as iniciais da facção criminosa Comando Vermelho pichadas no peito.Pela manhã, a polícia deteve três suspeitos de roubar os bustos do escultor e da poetisa, mas o delegado da 5.ª DP, GilbertoCarvalho, disse que eles não têm a ver com o crime, porque não foram reconhecidos pelo vigia. De acordo com o delegado, oparque é usado como rota de fuga por menores que praticam crimes no centro.Tombado pelo Iphan em 1938, o Passeio é tomado por mendigos e fica praticamente deserto durante o dia. O projeto dereforma, orçado em R$ 1,5 milhão, foi aprovado pelo Iphan, que acusou a prefeitura de protelar as obras. No início do anopassado, a prefeitura instalou tapumes, mas eles serviram apenas para esconder o parque. Localizado entre a Lapa e aCinelândia, no centro histórico do Rio, o Passeio fica a um quarteirão do Quartel-General da Polícia Militar. Também já foram levados cerca de 90 balaústres em bronze e outros elementos arquitetônicos e decorativos projetados por Valentim, que idealizou o parque.

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