''O mercado mata um bairro atrás do outro''

Empreiteiras criam razões para se morar em determinado local, mas no longo prazo pode ocorrer desvalorização

O Estadao de S.Paulo

19 de julho de 2008 | 00h00

Onde antes havia duas casas, hoje estão dois arranha-céus com 16 andares cada um, 128 moradores e 64 carros. Os números diferem, mas o cenário se repete a cada quarteirão do Itaim-Bibi, na zona sul. Com ruas estreitas, o bairro pára, congestionado - moradores reclamam por não conseguir sair da garagem."Nós temos tudo aqui: restaurantes, padarias, farmácias, supermercados, teatros, cinemas. Na sexta, deixo o carro na garagem e só pego na segunda-feira. Mas em algum momento você tem de sair para trabalhar. E aí é uma confusão", diz o presidente da Sociedade Amigos do Itaim, Marco Antonio Castello Branco. "Está na hora de o Itaim parar de crescer. As poucas casas que restaram estão sendo transformadas em bares barulhentos que infernizam a vida dos moradores." A realidade se repete em bairros que experimentaram, no passado, o boom imobiliário hoje vivenciado pelo Jaguaré, Tremembé e Vila Formosa. Na medida em que se valorizam, também ganham trânsito, calçadas sem sol e a feiúra de um prédio colado no outro. No longo prazo, correm risco de perder valor - a Vila Olímpia teve o metro quadrado desvalorizado em 3% em dez anos - e moradores, atraídos por novos bairros. "O mercado diz que é neutro, mas isso não é verdade. Eles criam razões para morar em determinado local. A Companhia City criou os Jardins sobre um pântano. Mas, na medida em que esses bairros se valorizam muito e os terrenos ficam excessivamente caros, todos buscam outra região para investir, onde criarão outra demanda. Do ponto de vista da cidade, o mercado imobiliário mata um bairro atrás do outro", diz o urbanista Jorge Wilheim, morador de uma casa numa rua sem prédios e sem saída - o que evita a passagem de veículos -, em Perdizes. "Essas ruas, hoje, são jóias raras." ADRIANA CARRANCA

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