'O MST Tem Hoje muito menos força'

Para Mercadante, situação do campo mudou no governo Lula e conflitos são localizados

Gabriel Manzano, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2010 | 00h00

O MST tem hoje "muito menos força e capacidade de mobilização" do que tinha antes, porque "a vida das pessoas mudou" e o momento da agricultura "é outro". A avaliação é do candidato do PT ao governo paulista, Aloizio Mercadante, que garantiu, em sabatina ontem no auditório do Estado, que os que quiserem lutar por direitos podem lutar, "e quando erram têm de responder à lei".

Com apenas 16% das intenções de votos, contra 54% do tucano Geraldo Alckmin - que, hoje, venceria a disputa no primeiro turno - Mercadante afirmou, também, que "o PSDB faz boas coisas para poucos. E nós podemos fazer melhor para todos". Essa é, segundo ele, "a diferença fundamental" entre os dois projetos. A seguir, trechos mais importantes da fala do candidato na sabatina.

Hoje, o MST tem muito menos força e capacidade de convocação e mobilização do que tinha antes do governo Lula. E o que mudou? Mudou a vida das pessoas. A agricultura brasileira emprega, cresce, produz, nós duplicamos a verba do Pronaf. O Estado aqui tem que ajudar a pequena empresa familiar. Nós fortalecemos a Embrapa, que é a nossa Nasa. Somos o maior produtor de suco de laranja, de café. O Brasil hoje é a segunda agricultura do mundo. E essa mudança de qualidade gerou emprego. Quando o país tinha inflação, não crescia, tinha recessão nas cidades, não tinha emprego, as pessoas não tinham como viver. Hoje, tem o Bolsa-Família, o salário mínimo cresce, falta mão de obra e a agricultura vive outro momento. Então, o conflito no campo começou a ficar reduzido, localizado. Quem quer lutar por direitos pode lutar. E quando erra, como erraram, por exemplo ocupando uma fazenda de laranja e destruindo o laranjal, tem responder à lei. O problema da agricultura do Brasil, a de São Paulo em especial, é o da agricultura moderna, a eficiência, a comercialização. É outra agenda.

Depois de 16 anos de PSDB no governo de São Paulo, se alguém perguntar se não teve nada de bom, eu acho que o PSDB faz boas coisas para poucos. Nós podemos fazer melhor para todos, para a maioria. Essa é a diferença fundamental do meu projeto. O PT não ganha em São Paulo, como não ganhava no Brasil, mas a resistência que havia ao Lula foi superada. O Geraldo Alckmin saiu com 69% de aprovação no final de seu governo. Só que não vemos o Fernando Henrique na campanha do Alckmin, como o Lula aparece na minha. O que eu posso apresentar em São Paulo, sem nunca ter governado o Estado, é pedir uma oportunidade, dizendo "nós fizemos um bom governo no Brasil e faremos o que foi feito no Brasil em São Paulo". Ainda não podemos comparar um governo do PT em SP com o do PSDB, porque nunca governamos aqui.

No governo FHC, tudo foi varrido pra debaixo do tapete. No governo Lula, tivemos CPI até do Fim do Mundo. CPI é um instrumento de oposição. Tem regras institucionais, nós aprendemos com isso. Faz parte da democracia, quanto mais transparência melhor. Com a Petrobrás, houve uma tentativa de CPI, todo mundo viu que os argumentos eram improcedentes. Como se aquela operação contábil tivesse algum problema, mais de 12 mil empresas tinham feito a mesma coisa. No caso Bancoop, a cooperativa é uma coisa muito positiva. Se tiver alguma irregularidade, quem cometeu vai pagar. Essa é uma mudança de cultura, inclusive, que estamos vivendo no Brasil. Então, vamos devagar, vamos ver o que vai acontecer na apuração. Só posso dizer que aqui em São Paulo nada é investigado. Numa Assembleia Legislativa, a função principal dela é fiscalizar, mas o governo do Estado de São Paulo não é fiscalizado. Tem denúncia todos os dias, muito graves e públicas, investigações do Ministério Publico, A dificuldade da CPI é que muitas vezes ela é marcada pela disputa partidária e acaba não tendo a isenção, o equilíbrio que deveria ter. Mas acho, mesmo assim, que tem que investigar. Em São Paulo tem de investigar a situação da saúde, da educação. CPI não é só para investigar desvios de conduta.

Ninguém pode dar uma garantia de que um governo não vai ter problemas com assessores. O PSDB aqui em São Paulo teve casos gravíssimos bem recentes. O que eu posso garantir é que qualquer um que não tenha uma conduta adequada vai ser afastado. Nesse caso em especial (o dos aloprados, de 2006), o meu nome não é citado. Teve um relatório da Polícia Federal onde se dizia assim: "O que não conseguimos explicar o Mercadante explica". E o procurador-geral da República, que é rigorosíssimo e indiciou dezenas e dezenas de parlamentares, disse: ''Não há um único indício de participação de Mercadante nesse episódio''. E o STF votou e aprovou, por unanimidade, o arquivamento. Quanto ao assessor (Hamilton Lacerda, envolvido no caso do dossiê dos aloprados), não o vi mais, nem fui consultado sobre uma decisão específica do diretório (de reingegrá-lo no PT). Enquanto não tem a sentença final, a pré-condenação política nem sempre é o melhor caminho.

Eu não fui ao cartório (como José Serra) assinar um documento dizendo que eu iria renunciar. O Serra registrou no cartório documento garantindo que não sairia da Prefeitura e saiu para ser candidato a governador. Eu já falei disso, mas volto a falar. Não anunciei minha demissão porque o presidente Lula me chamou para conversar. Eu disse que achava um erro nossa bancada não apoiar a investigação sobre os atos secretos. A posição do governo era de que (se renunciasse) poderíamos perder governabilidade e o apoio do PMDB. Foi a decisão do governo e do partido, não a da bancada. Como eu era líder da bancada e nós havíamos sido derrotados, decidi sair. Toda a bancada pediu para eu ficar, até os senadores que saíram. O presidente fez o pedido por escrito, inclusive. Ele me disse que se eu saísse a crise do Senado não melhoraria em nada. E avisou: "Sem você na liderança no Senado, vai prejudicar o governo." O que estava em jogo era nosso projeto de Brasil. Era maior do que meu grande sentimento de desconforto.

Detalhes

"Os tucanos falam que têm uma agência de fomento, mas é insignificante para o tamanho de São Paulo"

"Eu não pus meus filhos na escola pública, mas a oportunidade que dei a eles a maioria do povo não tem"

"Uma razão do esvaziamento do interior é o abuso dos pedágios"

"Em São Mateus, que tem 400 mil habitantes, há apenas um escrivão na delegacia. O pessoal chama ele de "escravão""

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