O mundo paralelo de quem tem perfil falso no Orkut

Em comunidades que chegam a reunir mais de 200 mil pessoas, é possível ir à praia, casar e ter filhos; tudo fake

Sérgio Duran, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2019 | 00h00

Lara Croft, quem diria, casou-se com Sid Vicious, o vocalista da banda punk Sex Pistols, e teve cinco filhos. Sid morreu, mas não em 1979, e sim dia desses. Claro, tudo fake. A palavra, que significa falso em inglês, é usada como nome da mais nova brincadeira do site de relacionamentos Orkut: criar falsos perfis que ganham vida própria, casam-se e fazem tudo o que a imaginação deixar. A heroína dos games e o punk estão entre os milhares de perfis que lotam comunidades com mais de 200 mil participantes.O movimento ganhou força há um ano, quando o site instalou dispositivo que permite verificar quem bisbilhotou o perfil alheio. Muitos criaram identidades falsas para continuar espiando. A criatividade foi tão grande que, em comunidades como Eu Tenho um Perfil Fake, surgiram concursos para saber quem era mais criativo.Digite a palavra fake no sistema de buscas do Orkut e aparecerão pelo menos mil comunidades, entre as quais Balada Fake, Praia Fake e Shopping West Fake, pontos de encontro desses perfis. "É como se fosse um Second Life pobre, onde ninguém compra nada, só faz amizades e vive histórias engraçadas", brinca a operadora de telemarketing Patrícia Borges, de 27 anos, de Ribeirão Preto, interior do Estado, dona de dois perfis famosos: Lara Croft e Fractal. "Todo dia tenho um monte de amigos para adicionar."Patrícia é raridade no mundo fake do Orkut, onde a maioria é adolescente. Há, inclusive, uma comunidade própria para quem tem mais de 25 anos e brinca de viver personagens no site. "A Lara anda meio desativada. Ela se encheu de filhos e a sua vida acabou ficando muito chata", reclama a operadora.Explique-se: é possível casar numa comunidade chamada Agência Matrimonial Fake e adotar filhos, todos fakes. Para viver o personagem direitinho, é preciso criar os rebentos, que passam o dia fazendo birra, estripulias ou mandando recados malcriados para as mães fakes."De repente você fala eu te amo para uma pessoa que nunca viu na vida porque não é você, é o seu fake", diz a estudante Jéssica Simões de Toledo, de 15 anos, que mora em Perdizes, zona oeste de São Paulo. Jéssica criou a Pedreira, com foto da cantora mexicana Mia, da banda Rebelde. Uma única celebridade pode ter várias réplicas fake, cada qual com uma vida diferente. Há comunidades só para fakes do Rebelde ou dos atores do High School Musical, produção da Disney de grande sucesso entre adolescentes. Por outro lado, há grupos de pessoas cuja ocupação é perseguir fakes desse gênero. Alguns são assassinados virtualmente. Pelas regras da brincadeira, uma vez morto, só é possível retornar ao mundo fake com outro perfil.Segundo a estudante Bianca Heredia Paulino, de 15 anos, da Mooca, zona leste de São Paulo, as meninas são a maioria entre os fakes. "Muitos meninos são, na verdade, meninas disfarçadas", diz Bianca, desde dezembro dona do perfil Apple. "É legal mas tem de ter limite", pondera.Falsidade é garantia de amizade fácil no Orkut, segundo a estudante Katia Ribeiro, de 17 anos, de Itirapina, interior do Estado. Atrás do perfil de Dulce Safadenha, conseguiu centenas de amigos que nunca havia conquistado sendo ela mesma. "O problema é que vicia. Passo o dia no computador."

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