O novo chefão da moda

Vicente Mello quer pôr o País na ?primeira divisão? do mundo fashion

Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

12 de janeiro de 2008 | 00h00

Vicente Mello não sabe costurar. Nunca deve ter tentado, na verdade. Vicente Mello também não sabe desenhar muito bem, pelo menos nada que vá além de um sol, nuvens e outros rabiscos dignos de alunos do primário. Sejamos sinceros, sem nenhuma maldade, Vicente Mello e seu rosto alongado também não combinam lá muito com passarelas e sessões fotográficas. Ainda assim, sem saber com absoluta certeza a diferença entre uma saia balonê e uma saia lápis, Vicente Mello é atualmente a grande estrela do mundo da moda brasileira. Pode procurar as últimas notícias publicadas nos jornais e revistas - à frente das modelos, dos estilistas e das novidades do São Paulo Fashion Week, que começa na quarta-feira, seu nome virou figurinha carimbada das manchetes."É um momento novo, digamos assim, estou me acostumando melhor a dar entrevistas e posar para fotos", diz o novo poderoso chefão da indústria da moda tupiniquim. Economista de formação, especialista em gestão de marcas com passagens pelo Banco Mundial e pela empresa de consultoria ATKearney, Mello é hoje presidente da Identidade Moda (I?M), holding que já era dona da Zoomp/Zapping e numa só tacada comprou as marcas Herchcovitch; Alexandre e Herchcovitch Jeans, Fause Haten, Clube Chocolate e Cúmplice. Isso transformou o grupo num conglomerado de R$ 300 milhões de faturamento, que deve abrir cerca de 25 lojas nos próximos meses. E a expansão não pára por aí. "Queremos ter um portfólio de 11, 12 empresas", conta. Isso quer dizer que a I?M pretende, em pouco tempo, faturar R$ 900 milhões - quase o mesmo da Microsoft Brasil, o que a colocaria entre as 300 maiores do País -, para então fazer a abertura de capital. "Procuramos comprar uma grife mais casual, uma grife esportiva, uma marca autoral e uma grife de acessórios com bolsas e sapatos." Nos bastidores, há rumores que os próximos alvos do apetite da I?M sejam a Crawford e a Siberian, do grupo Valdac, além da grife carioca Farm (que em apenas três meses no Shopping Iguatemi se tornou a quinta que mais vende por metro quadrado). Mas sejam lá quais forem as marcas abocanhadas por Mello, o resultado é que a indústria da moda brasileira caminha para a maturidade, seguindo um movimento de formação de conglomerados que já ocorre nos Estados Unidos e na Europa há quase 15 anos. "É uma nova etapa, mais profissional. A moda começa a ser vista como negócio, como business. As marcas continuarão independentes, cada uma com seu estilo bem definido, seus diretores de criação originais. Mas terão uma gestão muito mais definida, poderão crescer muito economicamente", diz o economista, que só na terça-feira chegou a dar entrevistas para quatro publicações diferentes, de revista especializada em mercado financeiro a site de fofoca e moda. Novos estilistas brincam que irão à São Paulo Fashion Week com a camiseta "Eu também quero ser comprado pela I?M". "Em termos práticos, os desfiles serão mais exuberantes, teremos modelos mais conhecidas nas passarelas, mais peças nas coleções, novas lojas e um novo jeito de lidar com o público. Muda a forma como a moda é encarada no País, literalmente."Mello, de 38 anos, não gosta muito de falar de si mesmo. De óculos moderninho Tag Heuer, um jeito um tanto blasé, ele, porém, sabe muito bem o que quer. A I?M é controlada pelo fundo de investimentos HLDC, da dupla Enzo Monzani e Conrado Will, ex-executivos do Pátria (banco de negócios) e do Banco Patrimônio. A função de Mello na holding é definir como as novas marcas serão geridas - a empresa investirá pelo menos R$ 20 milhões em marketing em 2008, dos quais R$ 2 milhões serão usados na contratação de seis supermodelos para desfiles e campanhas do grupo. Está prevista a inauguração de duas novas lojas de Fause Haten, oito lojas da Zoomp, oito da Cúmplice, uma da Clube Chocolate e duas de Alexandre Herchcovitch. Em março, a I?M vai ainda abrir um showroom nos Jardins, na esquina da Bela Cintra com a Estados Unidos. "A moda é o principal elemento de consumo de bem-estar, gera auto-estima", teoriza Mello. "Meu trabalho é fazer com que o consumidor me deixe invadir o guarda-roupa dele com os nossos produtos. Para isso, vamos cuidar desde a decoração da loja até o jeito que o atendente embrulha o pacote", diz Mello. Um ambicioso plano de internacionalização também já está todo prontinho. Herchcovitch vai abrir uma loja da sua grife em Nova York, bem parecida com a que já existe em Tóquio.Os desfiles do estilista nos Estados Unidos receberão mais recursos na próxima temporada - com o dinheiro sobrando em caixa, a próxima coleção de Herchcovitch, que deveria ter 250 itens, chegará às lojas com cerca de 700. Logo depois, Fause Haten será "exportado" e vai abrir loja em Milão. "O que eu digo é que não haveria razões para Herchcovitch, por exemplo, não concorrer diretamente com Alexander McQueen", diz Mello. "Estamos montando um time forte, para fazer com que a moda brasileira jogue na primeira divisão."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.