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O outro lado de Obama

Felipe Neto está certo em questionar a imagem de bom moço do 44º presidente americano e meu perrengue com Talibãs no Afeganistão é prova disso

André Fran*, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2021 | 10h00

Eu já estava há algumas horas viajando pelo trecho da Estrada Nacional 08, que liga Cabul a Jalalabad, no Afeganistão. A diferença de altitude entre as duas cidades é de mais de mil metros e, apesar do cenário com montanhas cobertas de neve ser encantador, o trajeto consistia em uma pista dupla bastante danificada pelas guerras e de tráfego intenso. Os frequentes acidentes apelidaram o lugar apropriadamente de "Estrada da Morte". Mas o ocasional barbeiro afegão aterrorizando atrás de um volante não era meu maior temor, mas sim os talibãs que aterrorizavam toda aquela região. Em determinado momento da viagem, o motorista contratado, cansado de ziguezaguear por aqueles desfiladeiros, ofereceu duas opções de roteiro. Na primeira, atingiríamos nosso destino final em quatro horas. Na segunda, era possível chegar em apenas duas horas mas havia a possibilidade de darmos de cara com rebeldes talibãs. Nunca uma viagem de carro foi tão longa.

Lembrei dessa história outro dia por causa de Felipe Neto. Mas o que o youtuber mais famoso do Brasil tem a ver com o grupo mais fundamentalista do Afeganistão? Bem, nada. Mas Felipe estava recentemente tuitando (e, como sempre, gerando polêmica) sobre as atrocidades cometidas pelo presidente mais querido da história recente dos EUA. Eu, que já elogiei muito os avanços progressistas de Barack Obama e critiquei na mesma intensidade sua postura belicosa mundo afora, me senti representado. Sempre nutri essa relação de amor e ódio com o 44º presidente dos EUA que está lançando seu novo livro com um oportuno “Book Tour” virtual que já o levou ao programa do Bial, a Oprah, CNN, FOX e até em canais de YouTubers famosos (quem sabe não rola uma acareação com Felipe Neto?). E talvez seja a sua relação com o Afeganistão, tão bem escondida nos capítulos de seu livro, que melhor represente o lado menos admirável de Barack Obama.

A curiosa experiência que relatei no início da coluna aconteceu em 2010, quando ele ainda era presidente dos EUA. Eleito há pouco mais de um ano com a promessa de um novo tempo para seu país e o mundo, ele representava a esperança de um fim para a maior operação militar da história americana. Mas as pessoas com quem conversei pelo país (felizmente não tive acesso a talibãs) contavam que a situação até era "diferente porém igual". O Afeganistão é uma nação infelizmente acostumada a conflitos. Um afegão da minha idade cresceu vendo confrontos com a União Soviética, com o Talibã, com os EUA… O cidadão médio por lá desconhece o que é viver em paz. Um comandante em chefe com aspirações pacifistas representava finalmente a possibilidade de calma e tranquilidade. Não era o que se via nas ruas de Cabul a Jalalabad. Entre atentados, fracassos e milhares de mortes, o presidente que prometeu em campanha retirar a última tropa americana do Afeganistão até o fim de seu mandato aprendeu a duras penas que não entregaria uma solução para o dilema que se tornou a sua "guerra sem fim".

Essa dicotomia entre o Obama pacifista, que ganhou um Nobel da Paz e tem como grande ídolo Martin Luther King, e o Obama que foi o primeiro presidente americano a estar em guerra durante todos os dias de seu governo, é a verdadeira narrativa escondida nas 768 páginas de "Uma Terra Prometida" (Companhia das Letras) que agora enfeitam minha cabeceira. O ex-presidente até reconhece a ironia por trás da situação em que se encontrou, mas não transforma o possível conflito ético e moral em protagonista de sua história. O que seria interessante. Pelo contrário: sempre que passa pelo tema o faz em tom de propaganda oficial que soa pré-aprovada por editores poderosos, órgãos governamentais e escritórios de advocacia. Termos calculados e palavras bem medidas que compõem um discurso ingênuo demais para alguém que deteve os códigos nucleares da mais poderosa nação do planeta. A verdade é que abandonar a caça aos terroristas teria um custo alto para a imagem de Obama. E de imagem ele entende. O desafio? Como preservar o "Obama da paz" estando constantemente em guerra.

Até mesmo o Brasil, essa república federativa sem maiores históricos de conflitos internacionais, aparece na obra do 44º presidente americano em um contexto belicoso. É que foi em uma visita ao País, no ano de 2011, que Obama lançou a primeira incursão militar de seu governo. O objetivo era dar um fim ao regime de Muamar Khadafi, na Líbia. O resultado foi uma operação com consequências desastrosas para o povo líbio que até hoje não se livrou do rastro de caos e destruição deixado pela máquina de guerra americana. Além disso, a "Batalha de Bengasi", como ficou conhecido o ataque ao complexo diplomático dos EUA que resultou na morte de um embaixador americano, teve consequências na carreira política de Obama e de sua Secretária de Estado na época, Hillary Clinton. Lembrado com frequência quando Hillary enfrentou Trump nas fatídicas eleições de 2016.

Obama evita a todo custo fazer um mea culpa em seu livro. Chega a abusar do cinismo ao afirmar que "…o maquinário que eu comandava me fazia matar as pessoas que queria salvar", em referência aos milhares de jovens mortos no Afeganistão, Paquistão e Iêmen. Os ataques por drones e as vítimas civis foram a grande mancha de seus mandatos. Foram mais de dez mil ataques por drone realizados pelos EUA desde o 11 de Setembro (a maioria no Afeganistão) e cerca de 20 mil vítimas aproximadamente, segundo o Bureau de Jornalismo Investigativo. Pelo menos dez por cento destas eram civis, incluindo mulheres e crianças mortas em escolas, casamentos e funerais atingidos por engano. Obama é responsável por autorizar mais de dez vezes o número de bombardeios de seu antecessor, George W. Bush, presidente dos EUA que deu início à "Guerra ao Terror". Nem mesmo Franklin Delano Roosevelt, que governou seu país durante o período da Segunda Guerra Mundial, permaneceu tantos dias de seu governo envolvido em confrontos militares. Se não bastasse, uma reportagem do NY Times de 2012 revelou que Obama passou a classificar qualquer homem em idade militar morto em área de conflito como combatente. Ou seja: um jovem de 18 anos morto por engano em um bombardeio de drone não era classificado como perda civil. Falta de responsabilização explorada por seu sucessor, Donald Trump, que também deixa um saldo trágico no comando de drones militares.

Obama foi eleito e teve seus dois mandatos no auge do marketing político. Não que ele tenha sido mau presidente, longe disso. Assumiu um país em meio a uma de suas piores crises econômicas e deu a volta por cima. Avançou conquistas sociais importantes e antes relegadas. Buscou sanar injustiças e lutar por causas difíceis mas fundamentais, como o controle de armas. Mas não foram exatamente seus grandes feitos que empurraram para debaixo do tapete o seu lado insuspeito de "homem de guerra". Obama é um exímio orador. Carismático e contundente. Sabe ser afável e amistoso sem perder a compostura do cargo. Um mestre da comunicação e, sobretudo, do branding pessoal. Em uma época que a imagem é tudo, os assépticos assassinatos por drone parecem coisa de videogame. E acabam se perdendo entre as imagens nas telas da TV (ou do YouTube) onde Obama sempre se saiu tão bem.

*É DIRETOR, APRESENTADOR DE TV, JORNALISTA E TEM MAIS DE 60 PAÍSES CARIMBADOS NO PASSAPORTE

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