‘O pai tinha sido o herói. Só demos sequência’

Soldados que resgataram os filhos da família Sutil em Xanxerê relatam a emoção com ato dele e a alegria de levar as crianças vivas para o hospital

Joimara S. Camilotti, ESPECIAL PARA O ESTADO

25 de abril de 2015 | 17h37

XANXERÊ- Soldados Mainardi, Dilmar, Ronier e sargento Lemes. São nomes que a família Sutil nunca mais vai esquecer. Foram eles que socorreram Gabriel, de 8 anos, o menino pelo qual grande parte de Xanxerê, a cidade destruída na semana passada por um tornado, continua a rezar. 

Antes de seguir para a rotina diária de patrulhamento, houve a destruição. Um pedido de ajuda de duas colegas de trabalho via rádio levaria a equipe ao campo da Agriter, no Bairro Tacca. Ao chegar, viram tudo “devastado”. “Três casas não existiam mais, não sabíamos se os fios de energia estavam energizados, víamos e ouvíamos o barulho de três botijões de gás e o sargento já determinou ação”, contou o soldado Mainardi.

A cena era terrível. Um homem com parte do assoalho de uma casa sobre o corpo, ladeado por duas crianças cobertas pelo barro. O pai, Alcimar Sutil, de 33 anos, usou o próprio corpo para tentar salvar os dois filhos. Pelo que os policiais puderam verificar, ele havia quebrado o pescoço.

Como não havia mais sinais vitais no pai, os policiais focaram no atendimento das duas crianças, inconscientes. “A bebê estava toda molhada, coberta de barro, com as extremidades roxas e vias respiratórias obstruídas. Imediatamente, eu e o soldado Dilmar fizemos a desobstrução das vias, enquanto o companheiro Ronier atendia o garoto”, descreveu Mainardi.

O soldado Mainardi segurou nos braços a pequena Ana Kelen, de 5 meses, filha de Alcimar e Cristiane Sutil, até a chegada ao hospital. “No caminho, ela reagiu. Nunca fiquei tão feliz com o choro de uma criança”, contou, emocionado, o soldado – que também é pai, de uma menina de 2 anos.

No banco traseiro da própria viatura da Patrulha Rural, o soldado Ronier segurava no colo o menino Gabriel. “Repetimos inúmeras vezes o nome Gabriel no trajeto até o hospital. Pedíamos para ele reagir, dizendo ‘Volta, campeão’ e ele abriu os olhos e esboçou querer chorar. Entregamos as duas crianças conscientes na emergência do hospital”, disse. 

O soldado Dilmar, de 31 anos, pai de um bebê recém-nascido, ficou responsável por levar com segurança e rapidez as vítimas até o atendimento. “Quando se vê uma criança (ferida) é totalmente diferente, bate uma angústia e eu só pensei em pisar no acelerador.” 

‘Não era para estarmos lá’. Por mais que os soldados e o sargento tenham anos de profissão, e várias ocorrências com mortes no currículo, o fato envolvendo a família Sutil faz a emoção escapar. O soldado Mainardi conta que, ao se deparar com o pai e os filhos no chão, observando o que o homem fez, só pensou em atender “o último pedido” dele: salvar seus filhos. “Não tem como explicar, é um fato ímpar. Não era para estarmos lá. Quando vimos o pai em uma cena horrível, com a casa sobre as costas, tentando salvar os filhos, só pensamos nas crianças. Vimos que ele tinha sido um herói.” 

Hoje a equipe só pensa em rever a pequena Ana Kelen e conhecer a mãe e mulher de Alcimar, Cristiane. A mãe e a bebê foram para Concórdia, onde permanecem na casa de familiares. Gabriel segue internado em estado gravíssimo no Hospital Regional Oeste, em Chapecó.

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