O Papai Noel mais antigo do País

Bom velhinho profissional desde 1975, Sílvio Ribeiro vira professor de informática de janeiro a novembro

Humberto Maia Junior, O Estadao de S.Paulo

22 de dezembro de 2007 | 00h00

Sentado atrás de sua mesa, cheia de papéis e fotos, numa sala pequena e com pouca iluminação, Sílvio Ribeiro não esconde o cansaço. Semblante abatido, olheiras profundas e até um certo mau humor evidenciam as noites mal dormidas. Cinco horas por noite. Mas ele não descansa e passa o dia com o telefone no ouvido direito. Tem de correr para atender a todos os pedidos. Além de ser o Papai Noel com mais tempo em atividade no Brasil, ele comanda a Claus Produções Artísticas, uma agência de Papais Noéis. Tem de correr para acertar tudo para a grande noite.Aos 58 anos, Ribeiro não reclama. Desde 1975 é um Papai Noel profissional - que trabalha com contrato assinado ou recebe recibo de pagamento a autônomo. Mas veste as longas barbas brancas e roupa vermelha há 40 anos. Foi em 1967, quando seu colega de trabalho, um senhor mais velho que se vestia como Papai Noel no Natal, ofereceu um acordo: assumir o posto a partir das 18 horas."Que ótimo!", pensou Ribeiro. Aos 18 anos, iria realizar o sonho de infância: ser um Papai Noel. Desde os 4 anos, tinha adoração pela imagem do bom velhinho. Mas a primeira vez que o viu pessoalmente...Foi numa loja em Bauru (SP), onde nasceu. O local estava lotado e o Papai Noel, claro, cercado por todos os lados, distribuindo pirulitos às crianças. O pai teve de carregá-lo no colo, até que os dois conseguiram se aproximar. E veio o golpe:- Pai, ele não é Papai Noel. É uma mulher.Até uma criança de 4 anos podia notar os seios grandes da mulher. A cena foi tão marcante que ele nunca a esqueceu. Ribeiro suspeita até que tenha sido decisiva na sua idéia de se tornar Papai Noel.Por isso, ao se olhar no espelho naquele dezembro de 1967, ele não conseguia acreditar. De repente, era o Papai Noel! Saiu pela loja à procura de crianças para conversar e dar uma bala. Mas só havia adultos. Ribeiro lembra que, naquela época, era raro a criança acompanhar os pais em compras noturnas. Outra diferença daquela época é que as crianças pediam apenas um presente. Geralmente patinete, forte apache, autorama ou boneca. Hoje, são dez: celular, computador, iPod...E, claro, a magia em torno do bom velhinho se perdeu um pouco. Cada vez mais cedo as crianças deixam de acreditar no Papai Noel. Anteriormente, a crença ia facilmente até os 9, 10 anos. Hoje, uma criança de 6 anos já tem pelo menos idéia do envolvimento do dinheiro dos pais. É a era da informação, que Ribeiro, professor de informática de janeiro a novembro, conhece bem.E quem disse que é fácil bancar o Papai Noel? Em 40 anos, ele, que já foi até Santa Claus nos Estados Unidos (em 1972) já passou por muito aperto. Como na vez em que, trabalhando num shopping de São Paulo, uma menina de 9 anos se aproximou e começou a chorar, abraçada a ele. Ribeiro achou melhor deixá-la desabafar até que ela olhou para ele e disse:- Papai Noel, eu sei que o senhor não é o Papai Noel de verdade, mas o senhor é papai.Ribeiro se espantou:- Por que você está dizendo isso para o Papai Noel?A menina respondeu:- Papai Noel, faz duas semanas que meu pai morreu. Estou triste e sei que não vou passar o Natal com ele, nunca mais. Seja meu amigo, como era o meu pai. É o senhor agora o meu papai e o meu Papai Noel!Nem 100 anos como Papai Noel preparam alguém para essa situação. Nem para ouvir um menino pedir um revólver para matar o pai - que largou a mulher para morar com a mãe de um colega de escola.Ainda que para essas coisas não se tenha conselho, há 31 anos Ribeiro ensina homens a se tornarem Papai Noel. Calcula já ter formado uns 1.500 Papais Noéis. Nas aulas, ensina de técnicas de impostação de voz à forma como se comportar com crianças, jovens, adultos e idosos. O mais importante é saber se comunicar. Não se pode insistir a quem não acredita no Papai Noel que ele é de verdade. Muito menos deixar uma criança acreditar que vai ganhar o que seus pais não têm condições de comprar. "Ser Papai Noel é muito mais do que dar balinha e perguntar o que a criança quer ganhar", diz. "O bom Papai Noel é aquele que consegue penetrar no mundo da criança."

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