Márcio Fernandes/Estadão
Márcio Fernandes/Estadão

O passado contado em fotos doadas

Clientes guardaram registros do bar de Sandra, famoso pelas coxinhas, que foi levado pela lama

Bruno Ribeiro e Márcio Fernandes, ENVIADOS ESPECIAIS

29 Outubro 2016 | 19h30

MARIANA - Antes da tragédia, seu bar constava no guia turístico da cidade. Um grande feito, dada a vocação de Mariana, com suas igrejas históricas, para o turismo. Localizado bem ao lado da placa que indicava que a rua fazia parte da Estrada Real, rota turística entre cidades de Minas e Rio, e também da igreja de Bento Rodrigues, erguida no século 18, o “Bar da Sandra” era famoso pela coxinha e, segundo contam os clientes, pela hospitalidade. 

“Teve uma vez que estávamos falando sobre os atingidos, e ouvi uma mulher dizer ‘deviam ter morrido todos’. Ela não sabia quem eu era. Eles acham que estamos explorando a Samarco”, lamenta Sandra Domertides Quintão, de 44 anos, a dona do bar. Seus grandes olhos azuis denunciam cada vez que se emociona. Ficam vermelhos, mas as lágrimas não chegam a cair.

Morando em uma das casas alugadas pela Samarco em Mariana com o marido e a filha, Ana Amélia, de 3 anos, Sandra tenta tocar a vida. “Saí suja de casa, correndo. Perdi tudo”, afirma. Mas a receita das famosas coxinhas estava na cabeça. E elas têm sido feitas na cidade, vendidas na feira ou por encomenda.

“Graças a Deus, está indo bem. Tem bastante pedido. As funcionárias dessa moça (que desejou a morte dos atingidos) começaram a fazer encomendas. Até que um dia ela fez também”, diz a comerciante, demonstrando não ter guardado rancor.

As memórias do bar, e da rotina da vida em Bento Rodrigues, jorram durante a conversa com ela, sem obedecer uma ordem linear. “Já teve gente que nasceu e morreu no meu carro”, conta, detalhando os percalços do cotidiano em uma vila distante da cidade grande. 

Do bar guarda a lembrança dos clientes. “Vinha motoqueiro, gente de jipe, cavaleiro, turma de todo canto. Meu bar era a parada obrigatória na cidade.” O local existe ainda nas fotos que ela carrega, todas doadas por clientes que guardaram registros do estabelecimento em meio às fotos de passeios turísticos. “Começaram a me dar. Dá para ver o piso, que era de pedra, feito por escravos. Eu quero que a minha casa nova tenha esse piso de novo. Quero que a Samarco me dê meu piso”, afirma. Um cliente também pintou um quadro com a fachada do lugar e doou a tela. 

Mudança. Sandra lamenta que a filha nunca brincará na vila onde ela e as primas cresceram. “Aqui na cidade não tem espaço.” Para dar à menina um pouco da liberdade que experimentou quando criança, conseguiu convencer a Samarco a trocar a casa onde vivia por outra, mais ampla, que fica na frente de uma praça, no bairro Independência, em Mariana. “Soube que iam alugar essa casa e corri”, diz, enquanto empurra a filha no balanço da praça. “Agora dá para a família se reunir no fim de semana. Éramos todos vizinhos.”

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