''O paulistano não deve falar mal de SP''

Wolfgang Nowak: ex-secretário de Estado da Alemanha; para consultor de Barack Obama, paulistano deve acreditar na capital e dizer a si mesmo: ?Yes, we can!? (Sim, nós podemos!)

Entrevista com

Bruno Paes Manso, O Estadao de S.Paulo

17 de novembro de 2008 | 00h00

No táxi, na televisão, no jornal, no dia-a-dia de uma maneira geral, um dos esportes favoritos do paulistano é falar mal da cidade. Pela quarta vez em São Paulo, Wolfgang Nowak, ex-secretário de Estado da Alemanha, diz que o excesso de propaganda negativa feita pela própria população de São Paulo foi uma das coisas que mais o impressionou por aqui. "Acho que o paulistano deve mudar de espírito e acreditar mais em São Paulo", afirma. Nowak esteve outra vez na cidade para os preparativos da conferência Urban Age, que já passou por Nova York, Londres, Xangai, Cidade do México, Johanesburgo, Berlim e Mumbai e este ano ocorre em São Paulo, nos dias 4 e 5 de dezembro. Além de promover debates sobre as megacidades, a conferência oferece um prêmio de US$ 100 mil aos melhores projetos feitos para São Paulo. Esta semana, Nowak embarca para Washington (EUA), onde elabora um programa para o desenvolvimento das metrópoles americanas, a ser apresentado no próximo ano para o presidente eleito, Barack Obama. "Ele é o primeiro presidente metropolitano, escolhido pelo eleitorado das grandes cidades. Terá de dar atenção a elas."Por que escolheram São Paulo como a sede da conferência deste ano?É impossível tratar os problemas das metrópoles mundiais sem discutir São Paulo, Mumbai, Xangai, Nova York ou Cidade do México, por exemplo. São Paulo tem ainda peculiaridades. Além de ser importante centro financeiro e econômico, tem graves problemas como favelas, trânsito, poluição e crimes. Concentra em um mesmo espaço o primeiro, o segundo e o terceiro mundo. Registra todos os conflitos e dilemas que interessam ser discutidos.Em São Paulo, nós compreendemos o significado do caos... Não vejo dessa forma. Pelo contrário.Trata-se de uma cidade vibrante, com dificuldades típicas dos grandes centros. Claro que os desafios são complicados. Mas o fato é que São Paulo é capaz de lidar com os problemas que têm, apesar de aparentemente o paulistano não acreditar. Os paulistanos parecem valorizar as imagens negativas da cidade.Não se trata de realismo?Eu não acho. Há um problema com a auto-estima da cidade. Vejo, na verdade, duas cidade de São Paulo. A São Paulo real, com um belo centro histórico, parques, verde, arte, uma população criativa e também algumas dificuldades. E a São Paulo da propaganda negativa, onde os próprios moradores gostam de aumentar seus defeitos. Você não vê isso em outros grandes centros, onde se costumam passar aos visitantes principalmente os aspectos positivos do lugar. Xangai, por exemplo, com graves queixas relacionadas a poluição e trânsito, entre outras, consegue se vender como uma cidade empreendedora.Como essa visão pessimista pode prejudicar a metrópole?Diminui o compromisso dos moradores com a cidade. O que vou falar pode soar um pouco como Obama, mas a cidade precisa estar pronta para mudar. E para isso deve acreditar que pode. São Paulo tem motivos para ser otimista. Quem sabe essa eleição nos Estados Unidos não ofereça lições. Assim como lá, talvez vocês devessem repetir a si mesmos "Yes, we can!". A Copa do Mundo de 2014 pode ser uma oportunidade para trabalhar essa mudança e aumentar o compromisso dos moradores.Existe exemplo de alguma solução criada em São Paulo que poderia ser implementada em outro lugar no mundo?São Paulo foi pioneira em implementar o empreendedorismo social. As experiências inovadoras com atores das próprias comunidades são uma importante referência para outras cidades do mundo. No que diz respeito às políticas oficiais, o programa Cidade Limpa é um exemplo de declaração poderosa que enfatiza a necessidade de celebrar o espaço urbano e os prédios, em vez de escondê-los atrás de anúncios. É impressionante. Hoje a paisagem de São Paulo é mais limpa do que a de Berlim e Londres, por exemplo.São Paulo para o senhor então não está entre as cidades mais feias do mundo?Certamente, não! Não é difícil encontrar beleza em São Paulo, mas provavelmente não se trata de uma beleza clássica. Eu gosto do centro. A qualidade principal de São Paulo é ser excitante, diversificada e incompreensível. São Paulo tem ousadia, é uma cidade incompleta, sempre mudando, uma vantagem que a coloca na frente do Rio de Janeiro. A beleza de São Paulo pode ser encontrada na escala macro, quando olhamos seu oceano de arranha-céus, ou por uma perspectiva minimalista, com arte espalhada pelas ruas. O senhor moraria em São Paulo?Sim. Por ser cosmopolita e pelas energias e pela criatividade de seus moradores.

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