O prazer de extrapolar

A ministra Ana de Hollanda vai devolver as diárias que recebeu indevidamente do Ministério da Cultura, assim como os ministros das Comunicações, Paulo Bernardo, e Afonso Florence, do Desenvolvimento Agrário, devolverão as quantias correspondentes a dias de folga que os três passaram em seus Estados. Respectivamente, Rio, Paraná e Bahia.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2011 | 00h00

Sem dramas nem contestações. A Controladoria Geral da União chegou à conclusão de que os três receberam extras por dias não trabalhados, recomendou a devolução e os ministros de imediato se prontificaram a seguir a recomendação.

Claro que o ideal teria sido que os ministérios não tivessem feito aqueles pagamentos e que os próprios ministros evitassem recorrer ao estratagema de marcar compromissos oficiais às segundas e sextas-feiras nas cidades em que mantêm residências.

O ótimo seria, inclusive, que não precisasse haver a denúncia via imprensa para que se fizessem as correções, mas, nesses casos, pelo menos a emenda não saiu pior que o soneto.

O mesmo já não se pode dizer do caso dos passaportes diplomáticos concedidos pelo Itamaraty aos filhos e netos do então presidente Lula, dois dias antes do fim do mandato.

Divulgada a concessão "por interesse do País", o Ministério Público analisou os 328 passaportes concedidos em caráter excepcional, concluiu que os sete concedidos à família Silva não eram justificáveis e pediu que fossem devolvidos.

Na ocasião, um dos filhos do ex-presidente avisou que devolveria o seu e o Itamaraty achou por bem revisar as regras para concessão de passaporte tornando-as mais rígidas.

Tudo parecia se encaminhar para uma solução parecida com essa agora da devolução das diárias, mas algo aconteceu que deu ao desfecho outra direção: a da arrogância e da deselegância.

Os passaportes não foram devolvidos e, diante da insistência do Ministério Público, o Itamaraty manifestou-se pela defesa de uma irregularidade que ele mesmo reconheceu ao mudar as regras para a concessão dos documentos.

Por que tudo isso? Porque Luiz Inácio da Silva não admite ser contestado mesmo, quiçá principalmente, quando errado. Porque não quer dar o braço a torcer e porque se considera no direito de extrapolar e insistir na extrapolação pelo simples prazer de exercitar sua insolência e falta de polidez.

Resultado: leva o Ministério das Relações Exteriores - que se deixa levar - a uma situação delicada e, sobretudo, inútil, obriga o Ministério Público a requerer a devolução dos passaportes na Justiça, expõe filhos e netos à crítica pública sem a menor necessidade e ganha o quê?

Nada, além de acrescentar mais um a sua já extensa lista de maus exemplos. Para completar, agora só falta orientar a família a usar os passaportes a fim de "provar" que com ele ninguém pode.

Business. O presidente do PSDB, deputado Sérgio Guerra (PE), é vice-presidente da Comissão Mista de Orçamento do Congresso. Nessa condição, foi o principal articulador do aumento do fundo partidário em R$ 100 milhões, atuando em dobradinha com o colega Gim Argello (PTB-DF).

Além de resolver o problema de todos os partidos e em particular do PSDB e do PT, cujos déficits das campanhas de 2010 somam exatamente o valor do reajuste das cotas de ambos no fundo, o acerto permitiu que os tucanos não perdessem dinheiro.

Como o PSDB elegeu menos deputados e senadores que na legislatura anterior e a distribuição do fundo é proporcional ao tamanho das bancadas, sem o aumento haveria prejuízo.

Se a oposição compactua com ações em causa própria, fiscalizar quem haverá de?

Assim é. Se confirmada, a candidatura de Gabriel Chalita à Prefeitura de São Paulo pelo PMDB estará para o governador Geraldo Alckmin, em 2012, como esteve a candidatura de Gilberto Kassab pelo DEM, em 2008, para o então governador José Serra.

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