O primeiro cão-guia a entrar no metrô vai se aposentar

Sua dona ficou conhecida por lutar pelo direito de deficientes visuais viajarem com animais

Luísa Alcalde, O Estadao de S.Paulo

30 Outubro 2008 | 00h00

Boris, o simpático labrador americano cão-guia da advogada Thaís Martinez, de 34 anos, vai se aposentar em dezembro. Os dois ficaram conhecidos ao protagonizar a luta pelo direito do deficiente visual em viajar ao lado de seu cão no transporte público de São Paulo. Depois de nove anos de serviços prestados à dona, ele será substituído por um colega mais novo. Com 10 anos de vida, Boris está na idade-limite para as funções que desempenha: a de especialista na condução de deficientes visuais. Um cão-guia se aposenta, em média, com 8 a 10 anos de função. Depois desse período, a visão, o olfato, a audição e as articulações do animal já não são mais os mesmos. Boris "milita" na área desde 2000, quando foi barrado pela primeira vez, na Estação Marechal Deodoro, acompanhando Thaís. O Metrô alegava que era proibido transportar animais nos trens. O impedimento foi parar nos tribunais. A Justiça deu ganho de causa ao cachorro, que possuía os documentos exigidos pela lei: atestados de saúde e de treinamento e termo de responsabilidade por eventuais danos. "O Metrô ignorava uma lei municipal e exigia que ele apresentasse um R.G. para poder desempenhar suas funções dentro de seus limites", lembra a advogada. Uma liminar garantiu a viagem dos dois. Um ano depois, apesar da ordem judicial, dona e cachorro foram novamente impedidos de entrar - dessa vez, na Estação Vila Madalena. Após anos de briga, em 2006 ele ganhou o direito de passar pelas catracas sem que Thaís tivesse de apresentar o tal R.G. A decisão partiu da 7ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça de São Paulo. Os juízes entenderam que a Constituição e mais duas leis (municipal e estadual) garantem aos portadores de deficiência visual o direito de entrar e permanecer em "ambientes de uso coletivo" com seus cães. Naquele ano, 80% dos 173 mil portadores de deficiências que passaram pelas catracas do Metrô eram cegos. Em 2005, além de Thaís, apenas outros dois deficientes visuais guiados por cães usavam os trens do Metrô. SUBSTITUTO No dia 16, Thaís - que perdeu a visão aos 4 anos, depois de contrair caxumba - embarca para os Estados Unidos em busca de seu novo parceiro. Ela ainda não sabe se será um labrador como Boris ou um golden retriever. Assim como Boris, o substituto também é treinado pela ONG americana Leader Dogs for the Blind. A escola prepara cerca de 300 cães-guia anualmente. Thaís e Boris, no entanto, não vão se separar. Ele continuará morando com ela, agora no posto de bicho de estimação. Para acomodar os dois cães, a advogada está de mudança. Sairá de um apartamento para uma casa. Quer oferecer a Boris aposentadoria digna e com conforto. "Eu jamais poderia abandoná-lo", diz a advogada, emocionada.

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