''O PT avança em áreas mais relevantes''

Candidato petista diz que quer ir para o segundo turno para debater tudo o que o adversário tucano alega ter feito e o acusa de 'lanterninha em saneamento'

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2010 | 00h00

Da boleia de um jipe Willys, o candidato ao governo de São Paulo, Aloizio Mercadante (PT), manteve o sorriso e acenou para os moradores do Jardim Romano, nos rincões da zona leste de São Paulo, durante quase quatro horas, na quinta-feira. Das 72 horas que antecederam a eleição, Mercadante aproveitou cada minuto. Foi de carreatas e comícios a caminhadas. Mesmo sob forte chuva, deu cada passo que pudesse aproximá-lo do segundo turno.

"Meu Deus! Como eu quero ir para o segundo turno com o Alckmin, debater cara a cara tudo o que eles dizem que fizeram em 16 anos do PSDB em São Paulo", desabafou Mercadante, na noite de sexta-feira. Ele recebeu o Estado em sua casa, no Alto de Pinheiros, num dos raros intervalos da campanha. "Minha angústia é não discutir tudo o que eu sei e estudei, o que fiz, as metas do meu programa. Não consegui debater nada." Para ele, o adversário tucano "fugiu do confronto".

Há quatro eleições, o paulista vota no PSDB. Por que votar no senhor?

Levou muito tempo para que os brasileiros acreditassem que o Lula seria um bom presidente. Hoje, todas as pesquisas o apontam como o presidente mais bem avaliado da História, com 85% de apoio. Por quê? Porque nós preservamos a estabilidade, não apenas de preço, que veio do Plano Real, mas a macroeconômica. O País tem hoje mais de US$ 263 bilhões de reservas cambiais, criamos 14 milhões de empregos, tiramos 28 milhões da pobreza e 30 milhões ascenderam à classe média. Isso criou um mercado interno forte, que sustenta o crescimento. Estamos mais preparados, experientes e seguros sobre o que deve ser feito.

O senhor cita muito a gestão Lula, mas nesse governo houve caos aéreo, os portos estão deficitários...

Nós avançamos muito mais, em praticamente todas as áreas relevantes, do que o governo Fernando Henrique Cardoso. Tanto que eles fogem dessa comparação, escondem o FHC da campanha, o que não acho positivo para a democracia. O governo FHC transferiu empresas e parte da estrutura do Estado para o setor privado, mas não assegurou investimentos para suprir as deficiências em logística. Quem voltou a fazer planejamento estratégico e articular investimento público e privado para infraestrutura e logística foi o governo Lula, e a Dilma (Rousseff, candidata do PT à Presidência) teve papel extraordinário nisso. Congonhas, Cumbica, Viracopos tiveram investimentos. A demanda cresce mais de 30% ao ano. Você tem de dobrar a capacidade aeroportuária a cada 3 anos. Os aeroportos do interior têm de ser acionados para reduzir a pressão sobre os de São Paulo. Mas o PSDB não fez. Bauru é subutilizado, Sorocaba não tem nem lugar para um cafezinho. O de Ribeirão Preto nunca saiu do papel.

O sr. critica os pedágios, mas as estradas federais não estão em pior estado?

Herdamos as estradas federais em estado lastimável do governo FHC. Quem retomou investimentos foi o governo Lula. Na BR-153, pusemos R$ 1 bilhão e a concessão é de 25 anos. O discurso do PSDB de que, entre as dez estradas do Brasil, dez são paulistas... Sempre foram! Nenhuma foi construída por eles - Bandeirantes, Dutra, Anhanguera, Anchieta. Eles fizeram uma pista da Imigrantes, em que caminhão não desce. E puseram um pedágio a cada 40 dias. Criaram uma licitação onerosa, em que o lucro não vai para manter as estradas - R$ 23 bilhões do sistema foram para outras áreas do Estado. A taxa interna de retorno dos contratos chega a 27%. Nos pedágios federais e novas concessões do governo Lula, é 8,5%. Por quê? Porque o modelo deles embute carga tributária brutal. Não dá pra fazer o discurso e aumentar os impostos disfarçadamente. Isso prejudica a competitividade do Estado, a economia de São Paulo.

O sr. pretende fazer ajuste fiscal?

De fevereiro de 2008 a dezembro de 2009, foram arrecadados R$ 4,6 bilhões a mais em São Paulo. Houve aumento brutal de impostos ao substituírem a distribuição tributária para farmacêuticos, bebidas, perfumaria e higiene, limpeza, papel, rações, produtos pornográficos, pilhas e baterias, lâmpadas, autopeças, brinquedos... Quem aumentou carga tributária no Estado, no Brasil, foi o PSDB e o FHC. No meu governo, eu quero reduzir impostos para remédios e alimentos, dar incentivo fiscal para as empresas ficarem em São Paulo e criar o BNDES paulista, para trazer mais crédito e investimento.

A candidata do PT ao Senado, Marta Suplicy, foi criticada, quando prefeita de São Paulo, por criar novas taxas...

Ela criou a taxa do lixo e já admitiu publicamente ter cometido um erro político, e eu acho que cometeu mesmo. Mas foi uma grande prefeita.

No Senado, o sr. acha que fez o bastante para trazer recursos ao Estado?

Nenhum senador trouxe mais recursos para São Paulo. Recebi 615 prefeitos no gabinete, fiz a articulação das áreas do governo e todas receberam emendas ou recursos. Meu gabinete foi uma embaixada das prefeituras em São Paulo, independentemente de partido. Liga para o prefeito de Cotia, do PSDB, e pergunta quem liberou R$ 5 milhões para a cidade na época das enchentes. Quem foi ver a situação lastimável que estava Cunha, também do PSDB, e liberou R$ 8 milhões e maquinários? Eu fui! Fora saúde, educação, saneamento... Trouxe R$ 1,2 bilhão do orçamento para o Trecho Sul do Rodoanel. Disputei para que São Paulo entrasse na economia de gás e petróleo. A unidade de gestão de todo o pré-sal do Brasil está em Santos e quem trouxe fui eu e não foi por decisão política. Mais da metade da Bacia de Santos está em São Paulo e parte do pré-sal está no litoral paulista. São 7 mil empregos diretos em Santos. Trouxemos universidades federais para ABC, Guarulhos, Osasco, Baixada Santista, Sorocaba. Nunca outro senador fez isso.

Senador, sobre...

Não, não! Você perguntou o que eu fiz em Brasília, agora vai ouvir (risos). O Alckmin diz que não construímos um hospital em São Paulo. Construímos três em São Carlos, um em Guarulhos, Diadema, Santo André, Campinas. O de São Bernardo do Campo está em obras. Em 2002, foram investidos R$ 1,5 bilhão em hospitais de média e alta complexidade. O Lula investiu R$ 6,7 bilhões. Está no orçamento. No metrô foram R$ 9,5 bilhões de financiamento e 36 empréstimos que eu ajudei a aprovar. Nunca houve atraso. A Secretaria da Fazenda ia no meu gabinete pedir ajuda e eu sempre me empenhei para agilizar a liberação dos recursos do Tesouro, da Casa Civil. O Alckmin tratou da questão no programa de TV, mas não teve coragem de abrir essa discussão na minha frente, olho no olho, porque não tem argumentos.

O sr. promete 30 km de metrô e aumento de salários para servidores. Está sobrando dinheiro nos cofres do Estado?

Os professores e policiais precisam ser valorizados. O governador não pode mais assistir a confrontos como o que ocorreu entre as Polícias Civil e Militar, diante do Palácio do Governo, as greves na Educação, na Justiça. Se é o Estado quem passa os recursos, tem de resolver essas questões. E o Brasil hoje tem condições macroeconômicas, um País que cresce a 7,5% ao ano. Isso quer dizer mais recursos fiscais, oportunidades de parceria com a iniciativa privada e acesso a financiamento internacional. Um cenário diferente dos anos 80 e 90. É preciso pensar grande. Eles (PSDB) não investiram em metrô, não modernizaram os trens da CPTM. Tiveram 16 anos para fazer isso! O Alckmin construiu 2,6 km de metrô no governo dele, de 2003 a 2006. É o pior ritmo de crescimento desde que temos metrô. O Serra fez em torno de 8 km. Barcelona, 80 km em cinco anos. Foi um governo lento, que investiu pouco em infraestrutura e quase nada em transporte e desenvolvimento do interior. Falta liderança, capacidade, empreendedorismo.

Seu adversário Geraldo Alckmin acusa prefeituras do PT, como Guarulhos, de jogar esgoto nos rios. O que o sr. pretende fazer em saneamento?

É típico do Alckmin querer transferir a responsabilidade para os outros, quando é ele quem tem de resolver o problema. Ele é o lanterninha do saneamento básico. Ninguém investiu tão pouco. Temos 20 cidades na Região Metropolitana com menos de 10% do esgoto tratado. Dessas, 17 são da Sabesp, empresa do Estado que cobra pelo serviço. Mas se tem a rentabilidade assegurada com a coleta, para que tratar o esgoto? Essa é a questão. A Sabesp precisa voltar a ter caráter público. O governo é acionista majoritário e pode fazer isso.

Na educação, o sr. fala em limitar número de alunos por sala e acabar com a progressão continuada, mas isso aumentaria a demanda...

Ah, então vamos continuar como está? Olha, educação para mim é investimento e prioridade absoluta. Ajuda a melhorar a saúde, violência, produtividade, empregabilidade. O que não pode é um governo que está aí há 16 anos, com o mesmo secretário de Educação, ter 100 mil professores sem concurso. O que não dá é para o Alckmin terminar o governo dele com 30% dos alunos do 1.º ano do ensino fundamental sem saber ler e escrever. Não quero uma política que reprove o aluno, mas não aceito que a escola não avalie. Quando eles dizem que melhoraram no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) é porque a aprovação conta na avaliação. Se só aprovar, ele melhora a posição no Ideb, mas não o aprendizado.

O sr. apoia avaliação do professor?

É claro, carreira é isso. Você progride pela titulação, cursos, desempenho. Eu vou dar um laptop para cada professor porque a escola pública tem de acompanhar os avanços. O modelo usado no Uruguai custa U$ 200. Se são 218,8 mil professores, custaria R$ 75 milhões. O orçamento da Educação é de R$ 30 bilhões. Dá para fazer! E para atualizar o material didático, fica muito mais barato, porque não é preciso imprimir. No Senado, aprovei R$ 1 bi para comprar computadores a alunos e professores. Quando foi a plenário, PSDB e DEM obstruíram o projeto e não deixaram votar antes da eleição. Mas meu compromisso nunca foi eleitoreiro. No segundo turno, tudo isso vai ficar claro.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.