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O que o Japão pode ensinar aos brasileiros que vão a barzinho no Leblon durante a pandemia

Nós brasileiros acabamos nos acostumando e naturalizando certos comportamentos, sem perceber que eles revelam muito sobre quem somos

André Fran*, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2020 | 05h00

A data em que completei 180 dias de quarentena com minha mulher e filha de quatro anos foi marcada por celebrações aqui no bairro onde moramos. Claro que ninguém estava comemorando o fato da minha família estar confinada. Muito menos nós. A saudade de passar um domingão na praia aumenta na mesma medida que o espaço do apartamento parece diminuir. Mas seguimos fazendo a nossa parte já que os índices da pandemia por aqui ainda inspiram mais cuidados do que flexibilizações. Ou seja: temos pouco a celebrar.

As “comemorações” aconteciam a algumas quadras de onde moro no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro. Centenas de populares lotaram as ruas do bairro desde o dia que marcou a reabertura parcial de bares e restaurantes da cidade após meses fechados em função da covid-19.

Os eventuais entreveros com troca de tapas, garrafas atiradas e biquínis arrancados chocam menos do que a quantidade de pessoas aglomeradas e, claro, sem máscaras exibindo todo o esplendor de sua ignorância, falta de empatia e desdém pela doença que, só no último fim de semana, registrou mais uma vez quase mil mortos no País. Imagens de jovens (e até pessoas no grupo de risco) bebendo, fazendo galhofa com medidas preventivas e xingando (sim, isso mesmo) o novo coronavírus foram parar do outro lado do mundo por meio das redes sociais. E a velocidade com que notícias ruins dão a volta no globo me fizeram lembrar do Japão, onde por acaso eu estava no início de todo esse pandemônio.

No começo do ano, os olhos do mundo estavam voltados para a terra do sol nascente. Era o início de uma nova era para os japoneses e o país ia sediar uma Olimpíada. Por força da profissão, eu estava lá para registrar esse período crucial. Mas outra história roubou a minha atenção e do mundo todo. Naquele momento, tirando a China, epicentro da covid-19, o maior número de infectados pelo coronavírus estava no Japão. Mais precisamente, a bordo do “Diamond Princess”, um navio de cruzeiro que pegou um passageiro doente em Hong Kong que acabou infectando mais de 700 pessoas e levando 14 delas à morte.

A OMS sequer havia decretado a “pandemia”, e as autoridades e profissionais de saúde locais já tinham que lidar com os conceitos de isolamento social, testagem e quarentena enquanto o mundo assistia assustado. Andando pelas ruas de Tóquio, ficava claro o medo da população ao perceber as máscaras a que estão tão habituados sumindo das prateleiras das farmácias em tempo recorde. A maior metrópole do mundo e sua população eram a receita perfeita para uma tragédia que só foi evitada pela rápida implementação de medidas que pareciam estranhas para nós ocidentais, mas que eram seguidas à risca pela sociedade japonesa.

Hoje, máscaras, álcool gel e distanciamento são parte do nosso cotidiano. Mas, naquele momento, me impressionou a disciplina, o senso comunitário e o respeito à ordem demonstrados pelo povo japonês ao lidar com aquela ameaça. E não era a primeira vez que aquele país, habituado a se recuperar de catástrofes das mais diversas, me impressionava por seu espírito de coletividade.

Em 2011, eu estava distribuindo doações em um abrigo na costa norte do Japão pós-tsunami quando uma cena chamou minha atenção. Abastecido por toneladas de roupas e mantimentos, eu tinha seguido para as áreas mais afetadas pelas ondas implacáveis como parte de uma expedição humanitária. Àquela altura, as consequências do desastre se mostravam ainda piores do que de início. Além da destruição provocada por terremoto e tsunami, a extensão dos danos na usina nuclear de Fukushima era uma ameaça de proporções ainda desconhecidas.

Como medida de segurança, o governo decidiu isolar toda a área atingida pela radiação, transformando o lugar em uma cidade fantasma da noite pro dia. O nível de emergência nuclear havia subido de 5 para 7, o mais alto registrado até hoje (igualando Chernobyl). Com as notícias aterradoras, vários dos membros tradicionais de uma equipe de voluntários haviam abortado a missão abrindo vagas para eu e meu grupo de amigos inconsequentes e voluntariosos. E foi durante essa missão humanitária que me foi revelado um traço fundamental da identidade do povo japonês. Uma característica de vital importância para o país se recuperar de tragédias como aquela.

Era o segundo abrigo que visitávamos no dia. Após rodar horas por cenários de completa destruição, cruzamos o limite da zona de exclusão. Apesar da pronta resposta do governo aos acontecimentos, a situação ainda era desoladora. Modernas cidades japonesas, com escolas, hospitais cinemas... tinham sido transformadas em entulho retorcido. Vi barcos que foram parar em cima de telhados, carros enfiados na parede de lojas e casas inteiras arrastadas por quilômetros pela força das águas. Nossa equipe estacionou próximo a algum ginásio improvisado como abrigo para sobreviventes e começava a retirar dos veículos o carregamento que trazíamos com mantimentos e roupas.

Uma fila se formava naturalmente. Não havia cercas improvisadas, forças de segurança ou responsáveis pela distribuição. Todos aguardavam a sua vez sem desespero ou individualismo. Nós abríamos as caixas e pessoas que perderam tudo na tragédia retiravam de forma ordenada e em silêncio os itens que queriam, faziam um sinal de agradecimento com a cabeça e voltavam para o abrigo. Reparei que um senhor de idade, após alguns minutos aguardando sua vez, pegou apenas um par de meias e se afastou. Fui atrás dele e, com a ajuda de um voluntário que fez as vezes de tradutor, disse: “Por favor, fique à vontade para levar quantas peças quiser”. Ele me olhou e com um sorriso tranquilo respondeu: “Se eu pegar mais do que necessito, posso estar tirando de alguém que precisa”. Uma constatação simples e óbvia, mas que pra mim foi um choque cultural naquela situação.

Nós brasileiros acabamos nos acostumando e naturalizando certos comportamentos. Sem perceber que eles revelam muito sobre quem somos. Andar no acostamento, não ceder o assento a idosos, jogar lixo na rua, furar fila...  Em uma situação de desespero, acreditamos que naturalmente o instinto de sobrevivência invoca nosso lado mais primitivo. A cultura do “farinha pouca, meu pirão primeiro”, a “lei de Gérson” e outros ditos populares evidenciam esse traço da personalidade do nosso povo.

Claro que isso não é exclusividade dos brasileiros, e que a disciplina hierárquica, o respeito à ordem e a obediência inquestionável dos japoneses também têm seu lado negativo como visto em capítulos nada elogiáveis de seu histórico de guerras. Mas é justamente nos momentos críticos, como durante a maior crise de saúde do nosso tempo, que alguns desses aspectos ficam evidentes. Seja o senso de coletividade do japonês, que prioriza o todo sobre a individualidade, ou a falta de empatia do brasileiro médio que sai para tomar um chopinho enquanto o País se aproxima da marca de 150 mil vítimas de um vírus ainda sem cura.

*André Fran é diretor, apresentador de TV, jornalista e mais de 60 países carimbados no passaporte

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