O recado na saída: 'Isso não vai parar'

O roteiro de despedida de Wagner Rossi da Agricultura incluiu uma primeira escala no gabinete do vice-presidente Michel Temer, seu padrinho político. Passava das 17 horas e a presidente Dilma Rousseff acabara de sair do Planalto para participar da cerimônia de encerramento da Marcha das Margaridas, no Parque da Cidade, quando foi avisada de que, assim que retornasse, Temer e Rossi gostariam de encontrá-la em seu gabinete.

Tânia Monteiro, Rafael Moraes Moura e Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

18 Agosto 2011 | 00h00

Foi o suficiente para Dilma prever o que a esperava, a ponto de, ao discursar, confundir o nome do governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), chamando-o de Agnelo Rossi.

Ao chegar de volta ao Planalto, antes das 19 horas, Dilma recebeu Temer e Rossi. Na conversa, a presidente voltou a avalizar, quase protocolarmente, o trabalho de Rossi à frente da pasta, mencionando a defesa do agronegócio.

Mas, pressionado e assustado com o cerco do noticiário e com o ingresso da Polícia Federal no caso, Rossi disse "não aguentar a pressão". Adicionou à conversa no gabinete presidencial reclamações contra a imprensa, sem que, no entanto, Dilma tenha reverberado a queixa.

Depois de entregar a carta de demissão a Dilma, os dois se despediram e a presidente permaneceu em seu gabinete, em reunião apenas com seu vice. Dilma informou a Temer que o cargo continuava sendo do PMDB e que aguardaria o nome a ser apresentado por ele. Preocupada, Dilma pediu a Temer que a ajudasse a manter o partido articulado, para que não fosse desperdiçado todo o processo de recomposição da base.

Dilma havia transferido para o PMDB a responsabilidade pela manutenção de Rossi no Ministério da Agricultura, mas foi o próprio Temer quem enxergou a situação insustentável depois da denúncia de que seu afilhado político usara o jatinho de uma empresa que mantém negócios com o governo.

Nos bastidores do Palácio do Planalto, o comentário era que Ricardo Saud, amigo de Rossi e seu assessor na Agricultura, tem uma complicada rede de conexões.

Na avaliação do próprio PMDB, as suspeitas ligações de Saud - que seria o fundador de uma subsidiária do Grupo Ourofino - poderiam causar muito mais problemas ao governo, atingindo escalões superiores. Rossi chegou a dizer a Temer: "Isso não vai parar".

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