O samba das nossas identidades

Multiculturalismo virou tema da moda no mundo inteiro. O rótulo de multicultural é pregado em cidades que parecem multiculturais e não o são de fato. Das que o são, nada se diz. Comparo Paris e São Paulo. Muita gente daqui não consegue passar um ano sem ir a Paris respirar o ar puro do multiculturalismo abstrato e teórico. Não raro têm de enfrentar o mau humor, a falta de educação e o racismo mal disfarçado dos oficiais de imigração, aos quais não se ensinou que Paris é multicultural. A mesma coisa acontece em Madri, Londres, Roma, Nova York e mesmo na Cidade do México. Paris é, sem dúvida, uma cidade de imensa riqueza cultural, lugar de tradições históricas na transformação política do mundo ocidental e na proclamação dos direitos humanos. Tudo ótimo para livros, tratados e debates. Mas o multiculturalismo de Paris é o que chamo de multiculturalismo de confinamento. Isso vale, também, para outras metrópoles da diversidade cultural. A diversidade fica devidamente trancada nos escaninhos culturais. Os diferentes e a diferença se encontram apenas no folclore da igualdade. É diverso o multiculturalismo paulistano, que prefiro definir como multiculturalismo transitivo. Ugo Giorgetti fez um belo documentário, Pizza, que é um retrato da metrópole nessa perspectiva. A cultura da pizza se difundiu não só entre descendentes de italianos, mas também entre paulistanos de todas as origens. Nordestinos estão entre os melhores pizzaiolos, inovando com os afrodisíacos ovos de codorna, para escândalo dos puristas. Conheço pizzas de diversas cidades da Itália. Excetuada a patriótica pizza que se faz em Nápoles, a pizza "marguerita", em homenagem à rainha Margarida, com as cores da bandeira italiana - branco-mussarela, vermelho-tomate e verde-orégano -, a pizza italiana está muito atrás da paulistana. A de Roma é intragável. Aqui, assimilamos a pizza napolitana e a reinventamos, no melhor espírito da dinâmica cultural.Não só - nem principalmente - pizzas entram no cardápio do nosso multiculturalismo. Na pintura, Almeida Júnior foi a Paris aperfeiçoar-se, pintava como parisiense. Voltou e descobriu a riqueza de cores e temas da cultura caipira, num momento, o do início da República, em que buscávamos marcos da nossa identidade. Carlos Gomes produziu óperas dignas da tradição do La Scala, de Milão, mas foi nas modinhas românticas cantadas pelos acadêmicos da Faculdade de Direito que ele entrou em nossa alma e aí ficou.O multiculturalismo só tem sentido como busca e encontro, como direito à diferença e à criação cultural, e não como repulsa pelo outro e diferente. Infelizmente, aqui também caminhamos para um multiculturalismo de confinamento, folclórico, de mestiços que se negam na cata de identidades puras e falsas.

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