O teorema de Bruna Surfistinha

Raquel Pacheco está "zerada". Foi ela que disse isso no seu blog. Depois de 3 anos se prostituindo, mandou dar baixa na carteira em outubro de 2005 e abandonou esta que é a mais brecholenta de todas as profissões. "Aposentada" portanto há três anos, fez os cálculos: 3 anos na putaria menos 3 anos fora da putaria é igual a zero. Sem dúvida essa matemática poderia ser aplicada a outros trabalhadores, incluindo os eleitos, com resultados muito positivos.No caso da Raquel Pacheco, que caminha a passos largos para se tornar uma mulher negativa, essa modesta nota zero é muito melhor do que nada. Desde que decidiu abandonar a laputa (a labuta jamais abandonou), suas conquistas foram muitas: aos 24 anos, está casada (com um antigo cliente), escreveu um best-seller, publicou dois outros livros de sucesso. Os direitos de sua história foram adquiridos por uma produtora de cinema. Agora a Raquel pedala de manhã no Parque do Ibirapuera, à tarde vai para o escritório e à noite dorme - como uma exigente telespectadora, "antes do Jô Soares começar". Os mecanismos da fama são capazes de revelar a perversidade a que estamos sujeitos, na sociedade do espetáculo, como vítimas e algozes. O caso da Raquel Pacheco é um exemplo. Quando garota de programa, ela transformou sua página na internet em um big brother desprovido de qualquer censura. Entre relatos detalhados de seus encontros com clientes e uma inspiradora contabilidade diária de posições e práticas sexuais, Raquel virou celebridade. Bastou demitir-se do empreendimento horizontal em que se encontrava para que a audiência de seu blog despencasse 70%. No lançamento de seu segundo livro, decidiu assiná-lo com seu nome de verdade. Diante da ereção verificada na pilha de encalhes, voltou atrás, mandando ver o seu velho nome de guerra numa segunda capa produzida às pressas. O público não queria saber da Raquel Pacheco. Preferia a prostituta, quer dizer, a Bruna Surfistinha. Com a segunda capa, a coisa então deslanchou.Há três anos, quando Raquel optou pela verticalização dos seus negócios, tatuou um "Veni, Vidi, Vici" na parte posterior do antebraço direito. O melhor, porém, reservou para a região do pulso: um pequeno botão com as letras PH e que vem a ser, veja que finesse, "o botão do phoda-se". É com esse estado de espírito, ou seja, premendo o delicado botão, que ela planeja montar uma butique erótica - uma sex shop sem cara de sex shop, para atender exclusivamente as mulheres. "A Bruna Surfistinha não pode abrir uma loja para vender cadeiras, né?" Digamos ser necessário um longo trabalho de reorientação da marca, cujo resultado se deve esperar sentado. Na atual circunstância, melhor ser mais conservador: a butique é uma puta idéia. E o passado, deixa pra lá - como me disse outro dia o Celso Ming, ele não abandona a gente jamais.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.