O último dia na vida do casal Richthofen

Na sua sala no sétimo andar da sede da Dersa, de 20 metros quadrados, o diretor de Engenharia Manfred Albert von Richthofen sentou-se numa poltrona de onde avistava, pela janela, os prédios da Rua Clodomiro Amazonas, no dia 30. Sobre a mesa, velhos companheiros: dois porta-retratos, que ganhou de presente num Dia dos Pais. Um deles com várias fotos da filha, Suzane. Garotinha, no colo do pai; sorrindo, na piscina, fazendo caras e bocas; sentada num sofá com a mãe, Marísia, o irmão, Andreas, e o pai; depois, já moça, linda, cabelos soltos. No outro, Manfred com Andreas. Marísia está com eles nas fotos. Todos sorriem. Na fotografia, uma família feliz. O sistema de câmaras da Dersa registrou a entrada do diretor às 9h09, exatamente, na sede da empresa, na Rua Iaiá, 126, no Itaim-Bibi. Foi um dia de despachos e verificação de projetos. Em especial um: o do Rodoanel. Manfred estava contente com a perspectiva de sair a ordem de serviço para a elaboração do projeto do trecho sul do Rodoanel Mário Covas. Próxima etapa, uma vez que o oeste já foi entregue inteiro. Esse foi o assunto que tratou, por 15 minutos, naquela quarta-feira, com o engenheiro Oswaldo Uyemura, gerente da Divisão de Planejamento e Custo da Dersa. "Nós vamos fazer o Rodoanel", o diretor falou, sorrindo, para um colega na empresa naquele dia. Mas ficou para o dia seguinte a tarefa de examinar uma projeção da obra. "Amanhã vemos isso." O engenheiro pegou o paletó, a pasta modelo executivo, trancou a porta e foi embora. Sua mulher, a psiquiatra Marísia, ocupou apenas das 7 às 13 horas o consultório da Rua República do Iraque, 808. Eles se encontraram na casa confortável, na Rua Zacarias de Góis, no Campo Belo. Foi assim o último dia do casal Von Richthofen. Os dois terminaram mortos na cama, enquanto dormiam, pouco depois da meia-noite. Os assassinos confessos: a filha Suzane, de 19 anos, o namorado, Daniel Cravinhos de Paula e Silva, de 21, e seu irmão Cristian, de 26. Andreas foi retirado por Suzane de casa e levado para se distrair num cibercafé no momento do crime. A mesma Suzane que fez questão de cumprir sua rotina, normal, na manhã do dia 30. Esteve na sala de aula 208 do segundo andar da Pontifícia Universidade Católica (PUC), na Rua Monte Alegre, em Perdizes, onde fazia o primeiro ano do curso de direito. Como em todas as quartas-feiras, assistiu às aulas de sociologia e fundamentos do direito público. O comportamento dela foi "calmo, tranqüilo, como sempre", segundo a professora Daniela Campos Libório Di Sarno, de fundamentos do direito público. Como habitualmente, naquele dia Suzane não se manifestou durante a aula de Daniela. "Ela nunca foi participante da aula, nunca foi de fazer perguntas." Mas tinha boas notas. Suzane tirou 8 na prova do terceiro bimestre da disciplina. "O que é uma nota alta." Ela estava "normal", garante uma colega de classe. "Os alunos conhecem a Suzane meiga e carinhosa. Não conseguem vê-la como assassina", acrescenta, afirmando que é difícil comparar a imagem que ela transmitia antes do crime com a de agora. Irmãos Dos irmãos Cravinhos, pouco se sabe até a passagem deles pelo cibercafé Red Play, no Campo Belo. Cristian esteve ali das 22h15 às 22h52. São os horários em que ele ligou e desligou a máquina de jogos, pagando a conta e indo embora. Quase uma hora depois chegaram Daniel, Suzane e Andreas. Os namorados não jogaram. Deixaram Andreas, que ligou a máquina às 23h47 e só a desligou às 2h55 da madrugada do dia 31. Nessa hora, os pais já estavam mortos. Ao deixarem o cibercafé, Suzane e Daniel se encontraram com Cristian e os três foram para a casa da Rua Zacarias de Góis, onde mataram Manfred e Marísia. Os quatro iam ao cibercafé com freqüência. Cada um usava um apelido (nick de jogo) no manejo da máquina. Suzane tinha o hábito de se logar como Su e Polar; Andreas era Raptor; Cristian, Soldado Cat; Daniel era o Kamikaze. Nos jogos, são criados cenários e situações desafiadores, como uma aventura na qual se tem de administrar pouca comida ou a construção de uma cidade a partir de uma casa. Homenagem A casa bonita e confortável que o casal escolheu para viver com seus filhos abrigou seus últimos momentos de vida. A morte dos Von Richthofen foi violenta. A identidade dos assassinos chocou ainda mais a cidade. A frieza da filha, Suzane, que comemorou os 19 anos numa festa na casa de campo da família com amigos, três dias depois do crime, deixou muitos perplexos. Assim como o motivo alegado para o crime: amor. Cenário do crime, a casa do Campo Belo virou ponto de visitação e de protestos. Vândalos chegaram anteontem ao extremo de pichar a palavra "vadia" na fachada. Quem passa pela frente do imóvel (de carro, a pé, de moto, de bicicleta) não tira os olhos da casa. Alguns param, sem esconder a tristeza. Duas mulheres, que se identificaram como Cristina, de 64 anos, e Joana, de 69, moradoras do Jardim Marajoara, zona sul, depositaram flores e duas cruzes na calçada, ao lado da garagem. Uma das cruzes tinha uma fita preta, e a outra, verde. As flores eram crisântemos amarelos, que se juntaram a outros, brancos, e a rosas vermelhas, já deixados ali por outras pessoas. Cristina e Joana também acenderam uma vela. "Por respeito ao casal assassinado", justificou Cristina. "Muita gente passa aqui só por curiosidade. Acho que se deve rezar e pôr umas flores", disse Joana. A feirante Sandra Aparecida Rodrigues, de 33 anos, de Santo Amaro, quase fez um discurso ao falar do que a impressiona na história. "Falta de amor ao ser humano. Isso é coisa do outro mundo, não é real. Parece ficção, parece que a gente está vivendo um pesadelo." Numa das garagens da casa, trancados, estão um Gol, presente dos pais, onde Suzane diz ter ficado enquanto o crime era cometido, e uma Blazer. Na parede, dentro da garagem, sobrou ainda a placa com a inscrição welcome (bem-vindo).Veja a galeria de fotosAcompanhe toda a história nos links abaixo. » Quinta, 31/10: Casal é assassinado no Campo Belo » Para vizinhos, casal era "simpático e reservado" » Sexta, 1/11: Policiais investigam namorado e filha do casal » Segunda, 4/11: Filha do casal depõe pela segunda vez » Terça, 5/11: Polícia volta à mansão do casal assassinado » Quarta, 6/11: Para Polícia, casal foi assassinado por vingança » Quinta, 7/11: Preso o irmão do namorado da filha » Sexta, 8/11: Pedida prisão de suspeito de matar o casal » A Polícia conclui: Suzane, a filha, tramou o assassinato » Assassinos do casal têm prisão provisória decretada » Polícia encontra material furtado da mansão do casal » Suzane era meiga e quieta, dizem colegas » Richthofen era homem-chave do Rodoanel » Matam os pais e não mostram remorso » Especialistas acreditam em "distúrbio mental" » Casal queria mandar a filha para a Alemanha » Sábado, 9/11: "Cheguei a pensar em desistir, mas já não tinha volta", disse Suzane » Pena de assassinos do casal pode chegar a 50 anos » Domingo, 10/11: Amigo diz que Andreas perdoou a irmã

Agencia Estado,

17 de novembro de 2002 | 11h09

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