O vaivém em torno da área do Casarão do Anastácio

Área de utilidade pública vai ganhar empreendimentos

O Estadao de S.Paulo

10 Agosto 2008 | 00h00

Em três meses, a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente mudou de opinião radicalmente com relação à preservação do patrimônio histórico do Município. Em março, conseguiu que um terreno de 170 mil m² em Pirituba, perto da Marginal do Tietê - onde fica o Casarão do Anastácio, em processo de tombamento -, fosse declarado área de utilidade pública, para a instalação de um novo parque. Em junho, porém, após reunião entre o secretário Eduardo Jorge, construtoras e entidades de moradores, veio a reviravolta: a secretaria pediu revogação da Declaração de Utilidade Pública (DUP), para apoiar a construção de um condomínio com 14 torres residenciais e um shopping center de 30 mil m² no local. O chefe de gabinete da Secretaria do Verde, Hélio Neves, argumenta que a decisão inicial de declarar o local como de utilidade pública foi tomada porque a área - a quatro quadras do Parque Cidade Toronto e também próxima do futuro Parque Orlando Villas Boas - teria "potencial" para abrigar um novo parque. "Seria um projeto integrado com o Parque Cidade Toronto. Por isso pedimos a DUP, no fim do ano passado", diz. Após a aprovação da declaração, em 11 de março, a construtora Tishman Speyer procurou a secretaria para apresentar outro projeto para o local - que acabou aceito pela pasta, depois da reunião com associações de moradores, em 9 de junho. Na "proposta inicial" da Tishman, além da construção das torres e do shopping, consta a reforma do Casarão do Anastácio para transformá-lo em equipamento cultural (possivelmente um museu) e a criação de uma "área verde integrada" com o Toronto. O Casarão do Anastácio foi construído em terras que pertenceram ao coronel Anastácio de Freitas Troncozo, figura de destaque na São Paulo do início do século 19. Em 1856, o terreno da fazenda foi vendido ao brigadeiro Tobias de Aguiar e sua mulher, a marquesa de Santos. Com a morte de ambos, os herdeiros passaram a área adiante. Antes de chegar à atual proprietária, a Empresa Flora S.A. Administração e Comércio, pertenceu ainda ao frigorífico da Companhia Armour do Brasil. Hoje, o casarão encontra-se em visível processo de deterioração. Para a urbanista Lucila Lacreta, diretora do Movimento Defenda São Paulo, a secretaria agiu de forma "apressada" ao pedir que o local fosse declarado de utilidade pública. "Se primeiro pensou em fazer um parque e, depois, abriu para a iniciativa privada, ou a decisão foi precipitada, ou houve ingerência de outras pressões que não a preservação do patrimônio." Neves admite que a prática não é comum, mas diz que, neste caso, o Município sai ganhando. "A secretaria viu que havia uma idéia melhor para a região, com 53% da área para uso público, da comunidade", afirmou. "A cidade vai ganhar um parque sem gastar os R$ 35 milhões que seriam utilizados em uma desapropriação." Entre moradores da área, as opiniões se dividem. Entidades presentes à reunião com o secretário foram favoráveis à proposta da Tishman. "Com a preservação da região, o bairro será valorizado, não há a necessidade de outro parque por ali", afirma o coordenador do Movimento de Defesa do Casarão do Anastácio, Edson Domingues. Quem não participou do encontro, porém, critica a decisão. "Chega de prometer parques que nunca saem do papel, ou que ficam abandonados. A secretaria tem de parar com essa mania", afirma o presidente da Associação dos Moradores da Vila Anastácio, Lajos Berez.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.