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O VAR destruiu o futebol?

Acredito que, além de museus, pontos turísticos e patrimônios históricos, uma das melhores maneiras de conhecer melhor uma cultura é indo a um estádio de futebol. Do Reino Unido à Arábia Saudita, torcedores praguejam contra a tecnologia

André Fran, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2021 | 14h00

Não que eu seja comentarista esportivo, mas a interseção entre futebol e sociedade é um de meus temas favoritos nesse mundo. Então, segue mais uma coluna nessa pegada. É que, justamente no dia em que o VAR, mais uma vez, se tornou centro das atenções no Campeonato Brasileiro de Futebol, lembrei de um episódio curioso. Estava eu em Moscou, conferindo no estádio o clássico entre Spartak e CSKA. Era trabalho. O jogo faria parte de uma grande reportagem sobre o uso do esporte como propaganda de Putin, superfaturamento de estádios e a violência dos hooligans russos em ano da Copa do Mundo no país. A arena era super moderna, assentos brilhando, telão gigante em alta definição. E não era pra menos, foram bilhões investidos pelo governo nos estádios da Copa. Parecia que eu estava em um hotel de luxo, com gritos de torcida em russo e congelando de frio na arquibancada… Um cenário totalmente diferente do que eu estava acostumado no Brasil. Uma sensação inusitada de presenciar algo tão familiar como uma partida de futebol e, ao mesmo tempo, me sentir em outro mundo.

 De repente, um ataque mais promissor coloca o povo de pé. Na entrada da área, o atacante faz uma finta e paralisa a zaga. Dá pra ouvir o som de um copo de plástico (regras da FIFA) caindo no chão. O mundo parece se mover em câmera lenta. Já dentro da grande área, o artilheiro prepara o corpo pro chute e… É atropelado por dois zagueiros que chegam esbaforidos, afobados e atrasados no lance capital da partida. Os três se embolam no chão e a bola sai mansa pela linha de fundo. A torcida irrompe em gritos furiosos. Com a empáfia de quem analisa uma pintura renascentista no museu, o juiz manda o jogo seguir. A torcida fica insana! Palavras indecifráveis (e, provavelmente, impublicáveis) são direcionadas ao árbitro. Garrafas são atiradas no gramado (surgiram sabe lá de onde), bandeiras viram armas na mão de torcedores inflamados pelo ódio. Ninguém parece se entender ali dentro. Caos!

Até que me viro pro lado e vejo um torcedor fazendo um gesto que me transportou direto para casa. Com os indicadores das duas mãos ele desenhava no ar um retângulo horizontal. VAR! Ele simulava o símbolo oficial do "Vídeo Assistant Referee”, o juiz auxiliar de vídeo, em uma súplica tão comum a torcedores desesperados no mundo todo.

Amado por uns, odiado por outros, o VAR chegou para ficar. Eu acredito piamente que, além de museus, pontos turísticos e patrimônios históricos, uma das melhores maneiras de conhecer melhor uma cultura é indo a um estádio de futebol. Preferencialmente, para conferir um clássico daqueles bem ferrenhos, como o que descrevi algumas linhas acima. Sempre dou um jeito de incluir um desses no roteiro das minhas viagens. De modo que, de uns tempos pra cá, pude acompanhar de perto esse complicado período de transição entre as eras A.V. e D.V.: antes e depois do VAR. E o quanto a relação das torcidas com esse advento representa suas culturas.

Na Premier League da Inglaterra, a liga de futebol mais badalada do momento, os torcedores já tem até xingamento específico pro VAR. O país foi um dos mais reticentes em aceitar a inovação. Torcidas, jogadores e técnicos falam abertamente sobre seu ódio pela coisa. A nação que inventou o futebol sempre teve aversão às inovações propostas pela FIFA. Ainda mais quando a proposta é misturar tecnologia no velho esporte bretão. Os ancestrais aristocratas ingleses se sentem meio que na obrigação de preservar a essência do jogo. Some isso ao conservadorismo latente na sociedade inglesa atual e acaba sobrando para o pobre do VAR (que de pobre não tem nada).

Em meio a trajes árabes típicos e mulheres de burca relegadas a um setor específico do estádio, já testemunhei também um clássico de futebol na Arábia Saudita. E lá também o pessoal não tem o árbitro virtual em alta conta. Se não bastassem as polêmicas a que estamos acostumados por aqui, os torcedores sauditas ainda tiveram que aturar um problema inusitado com o maquinário. Certa vez, durante uma partida oficial, um dos árbitros reserva simplesmente desligou o sistema inteiro para carregar seu celular. Ruim com o VAR, pior com ele desligado. Como o povo lá é acostumado a obedecer uma ditadura opressora, o que poderia ser uma tragédia acabou apenas em uns muxoxos da torcida prejudicada.

A Polônia historicamente possui algumas das torcidas mais violentas do futebol. Se não bastasse, o país é governado hoje por líderes extremistas, autoritários e ultraconservadores. Em uma sociedade já naturalmente conservadora, é claro que isso invade o campo de futebol. Gritos nacionalistas nas torcidas, líderes de organizadas envolvidos com partidos radicais e até estádios sendo usados como local de recrutamento. E onde o VAR entra nessa história? Talvez como símbolo do controle estatal e do uso político do esporte, o VAR na Polônia é o único na Europa integralmente financiado pela federação de futebol nacional. E, por incrível que pareça, a aprovação dos torcedores também é uma das mais altas no continente.

Pesquisas sobre a eficiência e aceitação do VAR tem sido cada vez mais comuns. Por um lado, uma pesquisa focada no campeonato italiano mostrou que o VAR conseguiu reduzir em até 80% os erros em campo. De outro, uma pesquisa da BBC no Campeonato inglês revelou que apenas 30% dos torcedores acham que o VAR melhorou o jogo.

Não podemos esquecer da desigualdade que perpassa o uso em maior escala do VAR (nem todo país pode implementar o caríssimo sistema). É válida também a cobrança por mais transparência na aplicação do recurso. Os erros de interpretação das imagens por parte dos juízes ainda conseguem tirar do sério o torcedor mais zen (isso existe?).  E, claro, a demora que parece eterna cada vez que o negócio é acionado. O "Video Assistant Referee” criou soluções, mas trouxe novos problemas. Quem achava que o VAR ia acabar com um dos grandes prazeres do futebol, a discussão sadia sobre os lances mais polêmicos da rodada, se enganou redondamente (perdão pelo trocadilho). 

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