Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Tenha acesso ilimitado
por R$0,30/dia!
(no plano anual de R$ 99,90)
R$ 0,30/DIA ASSINAR
No plano anual de R$ 99,90

O vizinho que enganou o Diabo

Tudo começara com uma febre maligna que prostrou Antônio da Costa Senra, jovem sapateiro imigrado dos Açores para o Rio e que, de lá, aí por 1775, se mudara para São Paulo como negociante de escravos. Suas afirmações heréticas eram atribuídas ao delírio da febre, pois antes dela ainda cumprira os ritos da desobriga na Quaresma. A febre passou e as heresias ficaram. Aos vizinhos e passantes que com ele conversavam à porta de sua casa, na Rua da Freira, atual Rua Senador Feijó, dizia que a alma perecia com o corpo e que Céu, Purgatório e Inferno eram invenções dos padres. Além do mais, Deus, a quem servira toda a vida, era mau pagador. Retribuíra-lhe com enfermidades e desacertos.Um vizinho, Miguel João Feijó, denunciou-o à Inquisição. Três religiosos foram, sucessivamente, enviados a sua casa para admoestá-lo e convidá-lo ao arrependimento, um deles o Frei Antônio de Santana Galvão. Foi-lhe dito que, se se arrependesse, Deus misericordioso lhe ofereceria a Glória. Mas Deus era também vingativo e aos que a recusavam oferecia o Inferno. O delatado reagia com "horrorosas proposições", dizendo que Glória conhecia duas: uma ermida no Rio e uma capela dessa invocação no subúrbio de São Paulo, no Cambuci, na chácara do capitão-mor Manoel de Oliveira Cardoso. Igualmente, eram dois os Infernos: o dos doentes era a cama de sua prostração; o dos sãos eram os "ferros d?El Rei", a cadeia. Nessa altura, ele se mudara para uma casa na Rua da Quitanda Velha, trecho da hoje Rua Álvares Penteado. Acabou preso por ordem do vigário da Sé, em 26 de novembro de 1782. Nas ruas, o vulgo o considerava herege, judeu e louco, três dos estigmas da época. Loucura não era porque governava bem a economia de sua casa e os loucos não fazem isso. A eventual condição de judeu nem sequer foi examinada. Restou-lhe o crime de herege. Ainda por cima era homem rústico e sem literatura, disseram. Quando visitado pelo cura da Sé, recebeu-o sentado e de chapéu na cabeça. Digamos que não tinha a polidez subserviente dos ínfimos. Desafiava a religião e desafiava a hierarquia social. Foi enviado a Santos e embarcado para o Rio, onde o inquisidor, Frei Bernardo de Vasconcelos, concluiu que tinha feito um pacto com o Diabo, ao qual o delatado, na intimidade, chamava de Saramago. Caíra nessa desgraça "pela demasiada ambição e desordenados desejos de ser rico". Aproveitando a viagem da fragata de guerra Nossa Senhora de Nazaré, seria remetido para os cárceres do Santo Ofício, em Lisboa. Antônio Senra usara manha de mau negociante no trato com o Diabo: vendera-lhe a alma em que não cria em troca da riqueza que queria. Vendera o que sabia não poder entregar. Só que a Santa Inquisição, que não era tão santa, agarrou-o primeiro.

José de Souza Martins, O Estadao de S.Paulo

13 de abril de 2009 | 00h00

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.