OAB defende participação da PF em investigações sobre milícias

Presidente da organização afirmou que 'grau de envolvimento' da polícia do Rio com milicianos 'parece intenso'

Felipe Werneck, Agência Estado

06 de junho de 2008 | 20h45

O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil no Rio de Janeiro (OAB/RJ), Wadih Damous, defendeu nesta sexta-feira, 6, a participação da Polícia Federal (PF) nas investigações sobre milícias no Estado. Em entrevista após ato de repúdio contra o seqüestro e tortura de uma equipe do jornal O Dia e de um morador da Favela do Batan, em Realengo, na zona oeste, no auditório da OAB/RJ, Damous afirmou que o "grau de envolvimento" da polícia fluminense com milicianos "parece ser intenso". Veja também:Deputados votam na terça criação da CPI das Milícias no RioPreso o número 2 da milícia da Favela do Batan, no RioMoradores confirmam prática de tortura em favela do Rio Convidado pela entidade, o ministro da Justiça, Tarso Genro, participou da abertura do evento, mas já havia ido embora quando Damous defendeu a participação da PF na investigação. "Achamos que o Estado deve procurar ajuda do governo federal", afirmou o advogado. A Secretaria da Segurança, por meio de sua Assessoria de Imprensa, afirmou que o presidente da OAB/RJ "não deve estar bem informado, porque as inteligências da PF e da secretaria trabalham em conjunto, e quem está no comando (o delegado federal José Mariano Beltrame) é da inteligência da PF". As investigações, porém, são comandadas pela Polícia Civil, que ontem recebeu relatórios com a localização (por meio de GPS) dos carros da polícia que entraram e saíram durante o período em que a equipe ficou na favela. Na nota em que anunciava a realização do ato, a OAB/RJ afirmava repudiar os trágicos acontecimentos, solidarizar-se com suas vítimas e conclamar "a que nos manifestemos por uma verdadeira segurança pública republicana, onde os direitos civis, sociais e políticos de toda a população - fundamentalmente daqueles que estão em situação de maior vulnerabilidade social e invisibilidade política - sejam cumpridos integralmente". "A impressão é de que as milícias avançam em função da ausência do Estado. É inadmissível que isso ocorra. São bandidos infiltrados no estado. O secretário (Beltrame) foi nomeado para resolver o problema, e não para se queixar dele", afirmou Damous.  "Infelizmente, não estamos vendo pronta e enérgica ação para desarticular esse bando de torturadores que age impunemente e livremente." Em discurso, Tarso disse concordar "integralmente" com as palavras de Damous. No mesmo ato, o deputado estadual Marcelo Freixo (Psol) afirmou que moradores de favelas são vítimas de milícias há muito tempo, e que a reação foi mais forte somente "a partir do momento em que elas chegaram àqueles que não entendemos como torturáveis". Ele defende a instalação de uma CPI na assembléia legislativa para apurar a ação de milicianos no Estado. O deputado federal Antonio Carlos Biscaia (PT-RJ) afirmou que o processo eleitoral está contaminado por práticas de criminalidade". "Vejo no Legislativo quem defenda (as milícias), lamentavelmente." Ontem, policiais do 14.º Batalhão de Polícia Militar, em Bangu, e do Batalhão de Policiamento de Vias Especiais (BPVE) realizaram uma operação na Favela do Batan, mas ninguém foi preso. Um dos objetivos da ação policial era a prisão do inspetor da Polícia Civil da 22ª Delegacia de Polícia Odnei Fernando da Silva, de 35 anos, acusado de ser um dos líderes da milícia local. Até ontem, apenas David Liberato de Araújo, 32, que cumpria pena em regime semi-aberto, foi preso apontado pela polícia como o segundo homem na hierarquia da milícia local e como um dos torturadores. Ele negou as acusações. Moradores se disseram intimidados pelo fato de PMs que patrulham a favela, afirmam, terem ligação com milicianos.  (Colaborou Pedro Dantas)

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.