OAB vai apurar morte de inocentes reféns

Para presidente da entidade, somente assim será possível contornar ?corporativismo?; pai de vítima diz ter medo da Polícia Civil fluminense

Felipe Werneck, O Estadao de S.Paulo

26 de dezembro de 2008 | 00h00

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) iniciou uma investigação paralela do assassinato de três bandidos e dois reféns por policiais da Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos (Drae), em Brás de Pina, zona norte do Rio. O objetivo da apuração é "contornar o corporativismo" da Polícia Civil, afirmou o presidente da entidade no Rio, Wadih Damous. Ele recebeu pela manhã na sede da entidade o pai e o irmão de uma das vítimas, o soldado do Exército Rafael dos Santos, de 21 anos.A família e a OAB criticaram o fato de a investigação policial ter ficado sob responsabilidade da Drae. "Isso (a investigação) não pode ficar só com a polícia. Vamos ouvir parentes e testemunhas que a polícia não ouve. Depois, entregar representação ao Ministério Público pedindo a abertura de ação penal para responsabilizar os autores", disse Damous. Na noite de terça-feira, o Palio onde o soldado Rafael e o amigo Paulo Marcos da Silva Leão estavam foi invadido por três assaltantes. Policiais civis perseguiram o carro. Houve troca de tiros, segundo a polícia, e os cinco ocupantes foram mortos. Ontem, o Palio estava na porta da delegacia.Ao contrário do que afirmou o delegado Alan Turnowski, chefe das delegacias especializadas do Rio, o presidente da OAB-RJ disse que os policiais sabiam que havia inocentes no Palio. "O objetivo da polícia é preservar a vida, e para isso há sempre uma alternativa, ainda que se permita a fuga. Está me parecendo mais um exemplo de corporativismo na polícia." Turnowski afirmara que os criminosos atiraram e, por isso, os policiais não tiveram alternativa. Sobre imagens que mostram um homem recolhendo arma no local do crime, divulgadas anteontem pela TV Globo, Damous afirmou tratar-se de um crime. "Me parece que estavam desfazendo a cena." O chefe de Polícia Civil, Gilberto Ribeiro, mandou abrir sindicância. Os policiais alegaram que a arma foi retirada antes da perícia porque eles temiam que ela fosse levada pela água do canal onde o carro havia caído. Os dois policiais que participaram da perseguição e do suposto confronto estão afastados. Um policial da Drae disse que a OAB "está cumprindo o seu papel, e a polícia, o dela, de investigar, sem tirar conclusões precipitadas". O prazo para conclusão dos laudos é de 20 a 30 dias.Pai do soldado, o açougueiro José Antônio dos Santos criticou o "despreparo" dos policiais. "A polícia só é preparada para matar. Aí, mataram os cinco. Encurralados!" Ele também lamentou o fato de não ter sido procurado por nenhum representante do governo do Estado, e afirmou ter medo de ir à delegacia. "Não fui registrar com medo da polícia. Não temos proteção." Santos afirmou que o local do crime não foi preservado. "Qualquer pessoa podia mexer em tudo."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.