Obras descaracterizam República

Um ano após reforma de R$ 3,1 milhões, praça sofre com intervenções para a construção da Linha 4 do Metrô

Luísa Alcalde, O Estadao de S.Paulo

06 de novembro de 2008 | 00h00

Pouco mais de um ano após terem recebido a Praça da República reformada, ao custo de R$ 3,1 milhões, os paulistanos já perderam grande parte dela para a Linha 4 do Metrô, ainda que temporariamente. O canteiro de obras instalado em 2004 em uma das laterais da praça, próximo da Rua 7 de Abril, quando a expansão começou, avançou mais na direção do centro do largo. A previsão de conclusão é para 2010.O cercado de tapume e arame farpado montado pelo Consórcio Via Amarela não poupou nem o coreto da praça, tombado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico (Conpresp) ou a estátua do médico e educador Caetano de Campos, que tinha recebido tratamento especial durante o processo de recuperação e nova placa.Em maio de 2006, a Praça da República foi fechada ao público para passar por uma grande revitalização, a maior desde 1905. Houve rebaixamento de canteiros e instalação de cerca metálica baixa na forma de arcos. Os novos pisos mesclam tijolos cerâmicos envelhecidos e blocos intertravados de concreto. O canteiro do Metrô passou por cima dessas melhorias. A obra foi entregue em fevereiro de 2007.Na área, o consórcio está levantando três pequenas construções de alvenaria. Na terça-feira, no horário de almoço, o coreto, que ganhou novos revestimentos e iluminação, servia de área de descanso e dormitório aos operários da obra. "O Metrô acabou com o gramado e passou por cima dos canteiros. Por que a Prefeitura não deixou para fazer a reforma depois?", questiona Maurício Ramos Saad, de 47 anos, dono da banca de jornal instalada em uma das laterais da República. "E eles dizem que eu é que atrapalho a revitalização da praça e há um ano querem me expulsar daqui."CHAFARIZESNão são só esses os sinais visíveis da rápida deterioração do local. Os lagos, cujas intervenções incluíram a correção das imperfeições do traçado, restauração da impermeabilização e colocação de canteiros aquáticos, reforma do sistema hidráulico e de oxigenação da água para criar condições para o desenvolvimento de peixes, estão imundos. Tudo porque, há dois meses, os 27 bicos injetores dos chafarizes dos lagos foram furtados. Sem oxigenação, a água antes cristalina está verde-escuro. A segurança é outro item que deixa a desejar, segundo moradores do centro e pessoas que trabalham na região. A vendedora Andréia de Oliveira Bitencourt, de 33 anos, mora na Rua 24 de Maio e costuma passear com seu poodle apenas durante o dia por ali. "No início estava bom, mas agora, depois das 18 horas, não dá nem para pensar em atravessar por aqui porque a praça fica tomada por viciados, moradores de rua e garotos de programa", afirma. O dono da Lanchonete República, Haung Si, de 35 anos, concorda. "Durante à noite tem muito ?nóia? (usuário de droga) por aqui."O tenente-coronel Paulo Adriano Telhada, comandante do 7º Batalhão da Polícia Militar, responsável pela segurança da área, discorda. "Estamos 24 horas na República. Todos os dias fazemos flagrante para coibir a criminalidade." Segundo ele, existe na região um problema social que foge da esfera policial. "É preciso a atuação do poder público para encaminhar moradores de rua para abrigos."COMPROMISSOSegundo a Subprefeitura da Sé, responsável pela área, o Metrô terá de entregar o local como estava após a reforma. O Consórcio Linha Amarela confirma. Em nota, a empresa afirmou que as áreas hoje ocupadas serão devolvidas como encontradas. "As obras da Linha 4-Amarela do Metrô exigiram intervenções na Estação República desde o início do contrato", disse o consórcio. A conclusão está prevista para o primeiro trimestre de 2010. O grupo alega que as obras não poderiam ser feitas antes da reforma. "As áreas hoje ocupadas serão devolvidas como foram encontradas."A Subprefeitura da Sé afirma que a recuperação da área, iniciada em 2006, era urgente e necessária, pois o espaço estava deteriorado. Sobre os bicos dos chafarizes, o governo disse que as peças já foram encomendadas. Vão custar R$ 9 mil e terão placas de aço em volta para evitar novo furto. A Coordenadoria de Segurança Urbana diz que as câmeras de segurança, instaladas no ano passado, não visualizam os chafarizes, por causa de arbustos existentes no local.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.