Obras no bonde de Santos revelam fundação de igreja do século 17

Arqueólogo já catalogou mais de 400 artefatos; achados, em sua maioria, são do fim do século 19 e início do 20

Rejane Lima, O Estadao de S.Paulo

10 Abril 2008 | 00h00

A ampliação da linha do bonde turístico do centro de Santos tem trazido surpresas históricas antes mesmo de ser inaugurada. Desde o dia 17, quando a prefeitura iniciou as escavações para a colocação dos novos trilhos, já foram encontrados mais de 400 artefatos, entre 50 e 60 centímetros abaixo do asfalto. São fragmentos que ajudam a restaurar parcialmente o retrato da sociedade que vivia naquela região em 1900. A descoberta mais surpreendente é a fundação da Igreja da Misericórdia, construída em 1665 e demolida em 1806.O arqueólogo Manoel González, responsável pelo Centro Regional de Pesquisas Arqueológicas - associação contratada pela empreiteira que realiza a obra para monitorar as escavações -, comemora os achados. "Esse é um importante passo histórico arqueológico." Ele lembra que os primeiros vestígios da localização da igreja são de 1998, quando da construção de um banheiro público na Praça Mauá. "Na época, encontraram ossadas, o que indicou que ali estaria o adro (terreno) da igreja, mas só agora descobrimos o posicionamento exato."Construída com argamassa feita com areia, concha moída e óleo de baleia, a fundação da igreja passará a constar dos mapas históricos da cidade. Além do templo, resgatam a memória de Santos pedaços de porcelana de origem inglesa, principalmente nas cores branca e azul e também em fragmentos cor-de-rosa e com paisagens orientais. Azulejos portugueses coloridos, com desenhos geométricos, faianças (louças) inglesas e também pedaços de grés foram encontrados. "Grés era uma garrafa de barro que os moradores reutilizavam, mas que primeiro vinha da Alemanha com água gaseificada", explica. Dos artefatos encontrados, o mais antigo, encontrado anteontem, é uma porcelana com um brasão inglês de 1890.O historiador Waldir Rueda, que também trabalha nas escavações, afirma que, apesar das louças serem imponentes, não significa que a sociedade santista daquela época fosse rica. "Essa faiança era importada, ia quebrando e eles deixavam no chão, e também aquela terra era de aterros que vieram de outros lugares", explica. A comunidade era composta por quem vivia em torno dos serviços portuários para exportação do café brasileiro. "Eram os serviços doqueiros e domésticos, quem trabalhava em alfaiataria, prédios públicos, farmacinhas, vivia ali no centro."PRESERVAÇÃODe acordo com o arqueólogo, decreto federal do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) determina a obrigatoriedade de contratação de profissionais para acompanhar obras em espaços históricos. "Na hora de começar, fazemos um trabalho de educação histórica e arqueológica com os funcionários. Eu explico que estamos resgatando o material de uma sociedade e por meio disso podemos entender melhor como viviam."González confessa que se diverte com os comentários dos trabalhadores e da população. "Outro dia me disseram: ?Nossa, esse pessoal era chique, hein? Na minha casa só tem prato Duralex?", brinca.Com a ampliação, a linha do bonde do circuito histórico de Santos passará de 1,7 para 5 quilômetros. A inauguração deverá ocorrer em outubro, mas o arqueólogo prevê surpresas em breve. Na próxima semana, começam as escavações próximas à Igreja do Rosário, na Praça Rui Barbosa, e a expectativa é de que no local existam ossos no antigo terreno da igreja.A obra, executada pela Termaq Terraplanagem, é supervisionada pela Secretaria de Obras e Serviços. O projeto, orçado em R$ 8,2 milhões, tem verba do Departamento de Apoio ao Desenvolvimento das Estâncias (Dade) e da prefeitura.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.