Obras podem ter sofrido danos irreversíveis

?Se enrolaram tela de Portinari, vai quebrar tudo?, diz especialista

Camila Molina, O Estadao de S.Paulo

11 de maio de 2009 | 00h00

No roubo de ontem, os ladrões levaram pinturas importantes de dois dos artistas mais valorizados do Brasil, Tarsila do Amaral (1886-1973) e Candido Portinari (1903-1962). Juntas, as obras são avaliadas em R$ 3,5 milhões. Figura em Azul, autorretrato pintado por Tarsila do Amaral em 1923, seria facilmente vendida hoje no mercado por cerca de R$ 2 milhões, segundo Jones Bergamin, diretor da Bolsa de Artes do Rio. Ainda em sua avaliação, o óleo sobre tela Cangaceiro, de 1956, de Portinari, valeria R$ 1,2 milhão e Retrato de Maria (mulher do pintor), de 1934, por volta de R$ 300 mil.Além da incerteza quanto ao destino das obras roubadas, há um outro problema, grave: os ladrões cortaram as pinturas de seus chassis deixando nas paredes da casa apenas as molduras vazias. Fizeram isso, provavelmente, para poder enrolar as telas e transportá-las. "É motivo de muita tristeza saber dessa agressão a obras que são patrimônios brasileiros", diz João Candido Portinari, filho do pintor, que lamenta também o risco de nunca mais se encontrarem as obras. Já o marchand Jones Bergamin faz um diagnóstico bem drástico. "Portinari pintava com bastante matéria no período da década de 1950, e como os ladrões cortaram e enrolaram a tela, vai quebrar tudo. Acho que apenas 10% ou 20% da tinta vai ficar." A tela a que se refere, Cangaceiro, faz parte de série temática, tal a dos retirantes, emblemática na carreira do artista. "É tema que ele aborda nos anos 50", define João Candido Portinari, exemplificando que foi nessa época que o pintor criou as ilustrações para o livro Os Cangaceiros (1952), de José Lins do Rego. "São muitas as que ele criou e a revista O Cruzeiro as publicou na época", conta.De certa forma, também, Retrato de Maria, é identificado pelo relatório do Projeto Portinari, dirigido por João Candido e referente à catalogação e divulgação da obra do artista, como pintura com "textura lisa e áspera". "Essa característica como a da textura espessa de Cangaceiro sugere dano maior", afirma o filho do pintor. Apesar de essa pintura, têmpera sobre tela, ser a menos valorizada das obras roubadas ontem, ela está entre os retratos importantes criados por Portinari. Nesse gênero, como diz Bergamin, são mais valiosos tanto os retratos que o artista fez de sua mulher, quanto os que fez de si mesmo.Além disso, Retrato de Maria integra série na qual o artista explorou um estilo de fazer os olhos do retratados como se fossem esculturas: seus olhos são pétreos, sem íris. Portinari também retratou a esse modo e nessa época o poeta e diplomata Raul Bopp e o compositor Camargo Guarnieri. Já o dano ao autorretrato de Tarsila com fundo com laranjas pode ser menor por sua pintura ser mais lisa que as de Portinari. A obra é muito bem avaliada por ser do período efervescente da carreira da pintora modernista, pós-Semana de 22, e do momento em que viveu em Paris fazendo parte do círculo de vanguardistas (frequentava o ateliê de Fernand Léger). FRASEJoão Candido PortinariFilho do pintor"É motivo de muita tristeza saber dessa agressão a obras que são patrimônios brasileiros"

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.