Ociosidade atinge 70% dos principais aeroportos do País

Brasil só perde para os EUA em número de terminais, mas está em 16.º quando se trata de aproveitamento

Fabiane Leite e Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2012 | 00h00

Saguões vazios, pistas para pousos e decolagens às moscas na maior parte do dia, enquanto o seguranças dormem tranqüilamente sem nenhum ruído de avião por perto. Apesar de as imagens divulgadas há dez meses, desde o início do caos aéreo, serem de superlotação e confusão nos check-ins, a realidade de grandes e pequenos aeroportos brasileiros é de calmaria. Ou de mau aproveitamento.Segundo dados oficiais da Empresa Brasileira do Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero), 70% dos seus 67 aeroportos, os maiores do País, têm horários ociosos na maior parte do dia e dois terços deles ainda dão prejuízo à estatal. Mais de 90% de todo o tráfego aéreo brasileiro se concentra em apenas 20 desses aeroportos. "Eu diria que a capacidade de utilização plena, de aproveitamento global do sistema, é de 30%. Evidentemente há pontos de estrangulamento, Vitória, Goiânia, o caso de Congonhas, mas são casos pontuais", afirma Valseni Braga, superintendente de Gestão Operacional da Infraero.Conforme dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), o Brasil tem hoje 2.498 aeroportos e aeródromos (locais sem terminais de passageiros), sendo 739 públicos e 1.759 particulares. Comparando com os registros da Organização Internacional da Aviação Civil (Icao, na sigla em inglês), isso significa o segundo maior número de aeroportos do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, que têm 16.507 locais para pouso e decolagem de aeronaves. O México, em terceiro lugar, tem 1.708, enquanto o Canadá tem 1.175. No entanto, levando-se em conta um índice mundial que compara o número de passageiros transportados com a quantidade de quilômetros rodados pelas aeronaves, o País aparece em 16º lugar no ranking mundial. Fica atrás de países como Japão, China, Holanda, Austrália e Rússia, que, apesar de terem menos aeroportos, os utilizam de maneira muito mais eficaz e distribuída.Especialistas e a própria Infraero afirmam que a falta de políticas de incentivo à ocupação, de planejamento da malha de vôos e de cumprimento de planos aeroviários, estes dois últimos itens de responsabilidade da Anac, são explicações para o subaproveitamento. A agência promete apresentar uma nova malha aérea em 60 dias, em atendimento a uma determinação do Conselho Nacional de Aviação (Conac).Também os 345 aeroportos públicos, fiscalizados diretamente pela Anac e administrados por Estados e municípios, têm ociosidade - caso da maior parte dos que são de responsabilidade do governo de São Paulo. "Temos uma situação em que investimentos foram feitos sem prioridade, sem planos e baseados no princípio da politicagem", diz o engenheiro Cláudio Jorge Pinto Alves, professor da Divisão de Engenharia de Infra-Estrutura Aeronáutica do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), que fez o comparativo entre o Brasil e outros países. "Aeroportos foram construídos com base em currais eleitorais, e não com base em estudos. O resultado todo mundo vê hoje em dia, poucos aeroportos cheios, abarrotados, enquanto outros ficam ociosos."Na semana passada, em reunião no Conselho Político do governo, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, disse ter ficado "impressionado" ao descobrir espaços ociosos nos aeroportos do Galeão, Confins e Viracopos, por exemplo. "Enquanto isso, Congonhas está sobrecarregado", constatou.Um trabalho feito por Alves e pela pesquisadora Betânia Gonçalves de Carvalho, também do ITA, estudou condição das pistas, capacidade dos pátios de estacionamento das aeronaves e estrutura dos terminais de passageiros dos 20 aeroportos mais movimentados. Os resultados mostram que discrepância é a palavra de ordem.O Aeroporto do Galeão, no Rio, por exemplo, tem duas pistas e um pátio para 53 aeronaves. Só que apenas 28% da capacidade das pistas é utilizada, enquanto o pátio tem apenas 43% da capacidade aproveitada. O terminal de passageiros, feito para receber 15 milhões de pessoas por ano, é utilizado por 4 milhões. Os aeroportos de Porto Alegre, Viracopos, Fortaleza, Manaus, Cuiabá e Maceió trilham o mesmo caminho.

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