Oficiais marcados para morrer

Comandantes de batalhões da PM da zona norte de São Paulo são ameaçados de morte por soldados envolvidos em chacinas

Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

13 de fevereiro de 2008 | 00h00

Oficiais da Polícia Militar que trabalham nos batalhões da zona norte de São Paulo foram jurados de morte depois de tentar pôr ordem em suas unidades. As ameaças começaram em 2007, muito antes de o coronel José Hermínio Rodrigues, comandante do policiamento da região, ser assassinado. Primeiro alvo do grupo de extermínio responsável por chacinas e por achaques a traficantes de drogas da região, o tenente-coronel João Osório Gimenez Germano pediu afastamento do 18º Batalhão - ele foi chefiar o 49º Batalhão, em Jundiaí, em 2007.Policiais que trabalhavam na Força Tática desse batalhão são os principais suspeitos pela morte de pelo menos 20 pessoas em quatro chacinas ocorridas na zona norte no ano passado. Três deles tiveram a prisão decretada depois do assassinato do coronel Hermínio, em janeiro, por causa de outros dois crimes. Todos eram comandados pelo tenente-coronel Gimenez, primeiro oficial a tentar desarticular os "Matadores do 18", como é conhecido o grupo.Em uma conversa com um outro oficial com quem conviveu no Comando de Policiamento de Área Metropolitano-3 (CPA-M3), Gimenez confessou que estava deixando o 18º Batalhão por causa das ameaças de morte. "Ele me disse que em sua área havia muito bandido e muito ?polícia? bandido. Disse que quis fazer umas mudanças e que os caras estavam ameaçando, telefonando direto para o batalhão. Ele falou: ?Tão querendo me matar. Eu vou embora daqui. Vou o mais rápido possível.? Ele aproveitou a deixa e saiu, pois a barra pesou. Agora nós estamos com a espada no pescoço", disse o oficial, que não quis ser identificado.As ameaças contra Gimenez foram confirmadas por dois outros oficiais ouvidos pela reportagem e por um delegado de polícia. Ele deixou o 18º Batalhão em junho de 2007, após as quatro chacinas. Além dele, um tenente também deixou o batalhão após ameaças. O Estado pediu ao comando da PM autorização para entrevistar Gimenez, mas ela foi negada. Também foi negado o pedido para entrevistar o tenente-coronel José Luiz Sanches Verardino, comandante do 5º Batalhão da PM. Verardino, segundo os oficiais, e um capitão do 5º Batalhão também receberam ameaças. Entre os oficiais circulam notícias de que pelo menos um coronel e sua família também foram ameaçados pelo bando."Todos os comandantes da região norte fizeram uma reunião, e estava todo mundo falando: quem vai ser o próximo? Tudo bem, era um caso pontual, o Hermínio que determinou essas mudanças e acabou indo atrás do grupo e mandou ir atrás, mas a gente não sabe o que se passa na cabeça dessa turma (os policiais bandidos). A coisa está complicada", afirmou um oficial superior.A situação ficou mais tensa depois que começaram a voltar para os batalhões os policiais que haviam sido afastados depois da morte de Hermínio. Cerca de 20 integrantes do 18º Batalhão, do 43º Batalhão, do 5º Batalhão e do 9º Batalhão suspeitos de envolvimento com diversos crimes na zona norte foram colocados à disposição da Corregedoria da PM, onde tiveram de prestar serviço administrativo durante esse período. Nos últimos dias, eles começaram a voltar para suas unidades. "Eu tenho mais gente envolvida, mas não consegui tirar. Nós não temos provas, e a gente não consegue movimentar esse pessoal."O GRUPOPara um oficial, "é possível" que os Matadores do 18 tenham começado a agir com o intuito de "limpar a área", mas depois o grupo passou a cobrar proteção e a achacar. "Passou a ser mandante de um monte de coisa." Eram policiais com "muitos inquéritos de homicídio".O comando, quando detectou, tentou separá-los, mandando-os para outras unidades da zona norte. "Em vez de ficar restrito à área do 18º, começou a espalhar para a área do 43º, do 5º, do 9º." O resultado é que o grupo aumentou, contaminando outras unidades. Em dezembro de 2007, o coronel Hermínio havia opinado pela expulsão de dois desses policiais. Haviam sido flagrados durante um achaque. Um pertencia ao 5º Batalhão e outro, ao 9º. Pouco depois, Hermínio foi morto.CRONOLOGIA DA CRISEExtermínio: Três chacinas entre janeiro e fevereiro de 2007, com 12 mortos, levantam a suspeita de participação de policiais militares em grupos de extermínio na zona norte de São Paulo Execuções: a quarta chacina de 2007, também na zona norte, deixa sete mortos no Jaraguá, em maio. A Polícia Civil apura o envolvimento de um PM. Das 11 chacinas do ano, oito ocorreram na zona norte. Há suspeita de participação de PMs em pelo menos três Assassinato: o coronel José Hermínio Rodrigues, comandante da PM na zona norte, é executado com seis tiros no dia 16 de janeiro, quando andava de bicicleta em avenida no Mandaqui Chacina: em menos de 24 horas após o assassinato de Hermínio, uma chacina no Jardim São Luís, também na zona norte, deixa sete mortos. Polícia Civil investiga participação de PMs Prisão: arma que matou coronel - uma pistola 380 - leva a Polícia Civil a prender três PMs do 18º Batalhão, em 25 de janeiro. A prisão preventiva é decretada porque o calibre da arma é igual ao de uma pistola usada para matar a mãe de um traficante ameaçado e achacado pelos dois sargentos e soldado investigados em ambos os casos Suspensão: ao todo, 20 policiais militares de batalhões da zona norte são afastados das funções desde a morte do coronel Hermínio. Parte dos PMs já voltou ao trabalho

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