Oito pessoas vão receber os órgãos de Eloá

Retirada do primeiro órgão estava prevista para começar à meia-noite

Vitor Hugo Brandalise e José Dacauaziliquá, O Estadao de S.Paulo

20 Outubro 2008 | 00h00

Pelo menos oito pessoas, todas de São Paulo, vão receber hoje os órgãos de Eloá Cristina Pimentel, a jovem de 15 anos que foi baleada na cabeça na sexta-feira, após ficar 100 horas como refém do ex-namorado, Lindemberg Alves, de 22 anos, no Conjunto Habitacional do Jardim Santo André. Menos de 12 horas após ser informada, na noite de anteontem, pelo Centro Hospitalar Municipal Santo André de que a garota havia tido morte cerebral, a família decidiu pela doação dos órgãos. "Serão transplantados o coração, os pulmões, o fígado, o pâncreas, os rins e as córneas", informou Homero Nepomuceno Duarte, secretário de Saúde de Santo André. Ouça as negociações entre Lindemberg e a Polícia Veja galeria de fotos do seqüestro e perfil das vítimas Acompanhe todas as notícias e a cronologia do caso Blogs do Estadão: o bom menino e a vida real A retirada do primeiro órgão, o coração, estava prevista para começar à meia-noite. Somente este procedimento deveria durar duas horas e meia. As captações seriam realizadas pelas equipes responsáveis pelos transplantes. Só após a retirada do último órgão, as córneas, será expedido o atestado de óbito legal. Eram 10h30 da manhã de ontem quando a diretora do Centro Hospitalar Santo André, Rosa Maria Pinto de Aguiar, recebeu a ligação que esperava desde as 23h30 da noite anterior, quando saiu o resultado dos exames que comprovaram colapso circulatório e ausência de irrigação sanguínea nas artérias cerebrais. Naquele momento, Ronikson da Silva, irmão mais velho de Eloá, comunicava a decisão da doação. "Foi a maneira de levar um pouco de alegria a alguém após tanto sofrimento, no final de uma história tão horrorosa", resumiu a diretora. Por volta das 15 horas, longe do hospital e do assédio da imprensa, os pais de Eloá, Aldo José da Silva e Ana Cristina Pimentel da Silva, assinaram o documento oficial que autorizava a doação. "As primeiras conversas ocorreram ainda ontem (anteontem) e, realmente, não foi fácil para a família", contou Rosa. "É necessário um tempo de elaboração, de aceitação do processo. É mesmo difícil para qualquer pai entender o processo (de retirada de órgãos), com o coração da filha ainda batendo." Às 12h30, a primeira equipe do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, da capital, chegava ao hospital para iniciar exames que identificariam que tipo de doadora é Eloá e quem seriam os possíveis receptores. Menos de duas horas depois, a mesma equipe deixava o hospital para voltar ao instituto, com material coletado para testes de compatibilidade. "Logo que soubermos quem são os receptores, a Central de Transplantes do Governo do Estado entrará em contato com eles, para que se dirijam aos hospitais onde receberão os órgãos", explicou o secretário de Estado da Saúde, Luiz Roberto Barradas Barata, que esteve no Centro Hospitalar à tarde. Após a captação dos órgãos, o corpo de Eloá será liberado para exames no Instituto Médico-Legal de Santo André e, posteriormente, para velório e enterro. Um jazigo foi oferecido gratuitamente à família, ontem, pela administração do cemitério particular de Santo André - a apenas 4 km de onde moram os Pimentel. NAYARA Segundo os médicos do Centro Hospitalar, Nayara, de 15 anos, a amiga de Eloá que também foi feita refém por Alves, tem "bom quadro evolutivo" para a cirurgia facial a que foi submetida. Ela foi atingida por um tiro na face. "Houve diminuição do edema e nenhum sinal de infecção", disse o cirurgião Marcelo Cini. "Ela está consciente e conversa bastante, mas só falamos sobre procedimentos médicos." Nayara deve receber alta até o fim da semana. "Algumas palavras da Nayara que me marcaram hoje (ontem) foram ?estou sem dor?", contou Rosa. Segundo ela, os médicos não informaram à adolescente sobre a morte de Eloá. "A decisão cabe aos familiares", afirmou. DEPOIMENTO O secretário de Estado da Justiça e Defesa da Cidadania, Luiz Antônio Marrey, esteve ontem no hospital. Ele disse que "não há pressa" para a Polícia Civil tomar o depoimento de Nayara, para esclarecer o que ocorreu na sexta-feira, quando oficiais do Gate invadiram o apartamento. "Ela vai prestar depoimento quando as autoridades médicas acharem que ela tem condições. Não há razão para precipitação", afirmou. "Nayara está sob nossos cuidados e do Conselho Tutelar e não consideramos benéfico à recuperação que ela se pronuncie oficialmente enquanto estiver internada", afirmou Rosa. Marrey se recusou a fazer uma avaliação da atuação do Gate no episódio. "Qualquer análise ou conclusão agora é uma precipitação. O Gate atuou em circunstâncias dramáticas, mas a avaliação deve ser feita por quem detém conhecimento de intervenção em situações de risco, no bojo de inquérito policial submetido à Justiça."

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