OMM: área de queda tem poucas informações meteorológicas

Dois jatos da Lufthansa passaram pela mesma rota que faria o jato da Air France e poderão ajudar investigações

Jamil Chade, de O Estado de S. Paulo,

02 de junho de 2009 | 17h08

A região do Atlântico entre o Brasil e África é um dos locais com menor índice de informações meteorológicas do planeta. O alerta é de Herbert Puempel, chefe da divisão de aeronáutica da Organização Mundial de Meteorologia (OMM), que destaca porém que dificilmente apenas um fator - como um raio - tenha levado o avião da Air France a uma eventual queda. Segundo ele, há uma preocupação que mudanças climáticas gere no futuro um número cada vez maior de problemas para aviões.

 

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A OMM se reunirá nesta terça-feira, 2, em Genebra com representantes do Comando da Aeronáutica para saber como é que a entidade responsável pelo monitoramento do clima no mundo pode ajudar nas investigações. Puempel, um dos maiores especialistas em questões relacionadas com clima e condições de voo, confirmou ao Estado que dois aviões que passaram pela mesma rota que faria o jato da Air France naquela noite emitiram automaticamente informações meteorológicas ao sistema de computação da entidade. Mas os jatos - ambos da Lufthansa - não estavam equipados para passar informações sobre turbulência. Apenas dados sobre a qualidade do ar e outros dados foram repassados.

 

Na segunda-feira, 1, a OMM confirmou que o avião da Air France não fazia parte do sistema que automaticamente registra turbulências ou qualquer outra informação meteorológica. "É uma região difícil do globo, afetada por uma convergência das frentes no hemisfério norte e sul", afirmou Puempel. "As tempestades costumam ser de alta intensidade. Mas, hoje, a única forma de saber a situação da região é por meio de satélites e de aviões que passam pelo local. Isso ainda não está sendo suficiente para que possa ter todas as informações necessárias sobre tempestades", disse.

 

Segundo ele, a grande dificuldade é que não há como estabelecer radares climáticos nesses locais. "Um radar poderia funcionar com eventos até 400 quilômetros da costa de um país. Mas nunca além disso", explicou.

 

Apesar da falta de informação, o especialista rejeita a tese de que apenas um raio poderia derrubar um avião. "Vai haver uma investigação e nós faremos parte disso. Mas desde já posso dizer que sempre consideramos os fatores climáticos como algo que pode contribuir para um acidente. O que também se pode dizer é que aviões estão equipados para suportar raios e que, na grande maioria dos casos, um incidente ocorre por causa de vários fatores, e não apenas um", disse Puempel.

 

Outra dificuldade para saber o que de fato ocorreu é que, além da falta de cobertura, algumas dessas tempestades podem ser curtas e localizadas. "Essa é uma região onde pode haver tempestades intensas, mas de curta duração, o que seria ainda mais difícil de ser prevista", disse.

 

Clima

 

Mas o que preocupa os especialistas é que a situação meteorológica poderá ficar ainda mais intensa nos próximos anos. "Se a situação climática for para a direção que indica o Painel Internacional de Mudanças Climáticas (IPCC), então há indicações de que as mudanças não serão apenas na temperatura da superfície do planeta, mas também no espaço aéreo", disse.

 

Segundo ele, especialistas e empresas estão debatendo formas para garantir um maior número de informações para os voos. "Estamos em debate com o setor para que estejam melhor preparados", disse.

 

Ele hesita em confirmar que exista já uma mudança no clima que esteja gerando maior turbulência para os pilotos. "Há alguns pilotos que já apontam que de fato isso está ocorrendo. Outros não", afirmou. "A realidade é que temos de construir um sistema em que haja um número maior de informações", disse.

 

"Tenho falado com pilotos que alertam que sempre que passam pela região em questão, enfrentam turbulências e ao mesmo tempo contam com pouca informação", disse.

 

Uma das ideias em debate é a de equipar todos os jatos com radares e equipamentos que possam, automaticamente, enviar os dados a uma central, que os redistribuiria a todas as companhias aéreas.

 

Voo 447

 

O Voo 447 levava 126 homens, 82 mulheres, 7 crianças e um bebê, além dos 12 tripulantes - 3 tripulantes técnicos e 9 comissários. Segundo a companhia, a aeronave entrou em funcionamento em 2005 e recebeu manutenção pela última vez em 16 de abril deste ano. O acidente é o mais grave da história da empresa, caso não sejam encontrados sobreviventes. O avião deveria ter chegado a Paris às 11h (6h, horário Brasília), mas perdeu o contato.

 

Segundo a relação divulgada pela Air France, dos passageiros do Airbus desaparecido, são 61 franceses e 58 brasileiros. Porém, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) afirmou que a Polícia Federal apurou que 52 brasileiros estavam no voo - mais tarde alteraram o número para 57 -, e muitos desses passageiros têm dupla nacionalidade - brasileiros com naturalidade francesa e vice-versa -, o que dificulta o trabalho de checagem na lista de passageiros, que está sendo feito com ajuda da Polícia Federal.

 

Além disso, viajavam 26 alemães, nove italianos, seis suíços, cinco libaneses, quatro húngaros, três eslovacos, três noruegueses, três irlandeses, dois americanos, dois espanhóis, dois marroquinos e dois poloneses. Havia também um cidadão de cada um dos seguintes países: África do Sul, Argentina, Áustria, Bélgica, Canadá, Croácia, Dinamarca, Islândia, Estônia, Gâmbia, Holanda, Filipinas, Romênia, Rússia, Suécia e Turquia. Ainda não há previsão para a divulgação da lista com o nome dos passageiros.

 

Causas

 

A investigação das causas do acidente foi entregue ao Escritório de Investigações e Análises para a Segurança da Aviação Civil (BEA), da França. Os motivos para o desaparecimento do Airbus A330 da Air France seguem desconhecidos.

 

A Air France fez um relato das horas seguintes a sua decolagem do aeroporto Tom Jobim, no Rio de Janeiro, às 19h (Brasília). Segundo a companhia, o avião atravessou uma zona de tempestades e turbulências fortes que poderiam ter afetado seus circuitos elétricos. Durante o voo, a 1.228 quilômetros de Natal, a aeronave informou perda de pressurização. O diretor de comunicação da companhia, François Brousse, declarou que também é possível que o avião tenha sido atingido por um raio.

 

Outra possível causa é a condição climática da região onde o avião teria desaparecido. Trata-se da chamada zona de convergência intertropical, onde há a formação de muitas áreas de instabilidade, com raios e tempestades. De acordo com a meteorologista da Climatempo, Fabiana Weykamp, esta hipótese não pode ser descartada, mas ela destaca que esta zona de convergência intertropical é muito conhecida de pilotos e companhias aéreas. Portanto, esta instabilidade da região seria levada em conta no plano de voo da aeronave da Air France.

 

A falta de explicações para o acidente obrigou o diretor-presidente da Air France, Pierre-Henri Gourgeon, e o ministro da Ecologia e dos Transportes da França, Jean-Louis Borloo, a admitirem, ainda na noite de ontem, que a hipótese de ato terrorista não está sendo ignorada. "Nada pode ser descartado", afirmou Borloo. Embora o Brasil não seja alvo de ações terroristas, a França é, constantemente, objeto de ameaças provenientes de grupos islâmicos extremistas.

 

Mesma opinião foi manifestada pelo ministro da Defesa francês, Herve Morin. "Não podemos descartar um ato terrorista já que o terrorismo é a maior ameaça às democracias ocidentais, mas nesse momento não temos qualquer elemento indicando que tal ato tenha causado esse acidente", afirmou à rádio Europe 1, segundo a Reuters.

 

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