On cô tô? Don cô vim? Quem cô sô?

O preconceito contra o preconceito está se tornando o pior dos preconceitos. Não se pode mais apontar o dedo para nada, sob pena de lhe descerem o sarrafo. Veja o exemplo dessa arquitetura que brota por aí já faz tempo, com seus edifícios neoclássicos, colunas gregas e telhados do Partenon. Isso é que é ser vintage! Pois vá propor a sua extinção - sim, a sua simples proibição - e será acusado de tudo nesse mundo, a começar por ser arrogante e a terminar pelo exercício da censura. Diante do nosso silêncio, pululam esses prédios bizarros, ficando o pepino para os arqueólogos do futuro: teria a Grécia Antiga se expandido até o Brasil? No final, concluirão os estudiosos, Sócrates foi um filósofo, médico e jogador do Corinthians. Tendo elucidado essas questões, não será surpresa quando os escavadores se depararem com o castelo medieval do Edmar Moreira no interior de Minas - afinal, o intercâmbio entre a Europa e o Brasil já se dava desde pelo menos quatro séculos antes de Cristo, o que fará crer que os portugueses não descobriram coisa nenhuma. Antes o contrário: sendo mais antigos que eles, teríamos fundado Portugal, enviando um técnico no assunto - Luiz Felipe Scolari, mais tarde escorraçado pelo ingleses. Esta, no entanto, é outra história. O fato relevante é que o preconceito contra o preconceito pode nos levar a equívocos depois incontornáveis. Digo isso a propósito de um fato positivo surgido neste carnaval - enfim uma reação, uma luz no fim do túnel, um balde de água quente. Em três cidades históricas de Minas - Ouro Preto, Mariana e São João del Rey - axé music e funk carioca estão proibidos durante os dias de festa. Proibidos por lei! Que maravilha! Libertas quae sera tamem! Embora a defesa do veto se baseie no argumento de uma ação coordenada para recuperar o bom turismo de carnaval nessas cidades, alguém deve ter lançado mão do mesmo predicado que se aplica comumente à inveja: "A axé music é uma merda." E é mesmo, fazer o quê? Só porque a Tropicália misturou o que era bom com o que era ruim, produzindo uma coisa ótima, não significa que somos obrigados a engolir apenas a parte da empulhação em estado bruto. O Caetano que vá processar esse negócio pra gente e devolver uma terceira coisa. Assim, na sua forma original de excremento, tem mais é que ser confinada a Salvador, que afinal criou o monstro e dele se dê conta. Em 2010, Diamantina vai aderir à frente mineira contra o axé. Aí sim, retirarei da naftalina a camiseta que todos ostentávamos na cidade de JK durante os carnavais de outrora: na frente, o triângulo vermelho da bandeira de Minas com a finíssima inscrição "Liberas que te como também"; atrás, o clássico "On co tô? Don cô vim? Quem cô sô?"

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