Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

ONG cobra que poços em área contaminada tenham monitoramento independente

Reportagem publicada pelo 'Estado' mostrou a contaminação de um poço com alto teor de urânio em um sítio localizado em Lagoa Real

André Borges, O Estado de S. Paulo

08 Setembro 2015 | 15h40

BRASÍLIA - A Comissão Paroquial de Meio Ambiente (CPMA), organização sem fins lucrativos que atua na Bahia, divulgou manifesto para cobrar que o monitoramento de poços da população que vive na região de Lagoa Real, no sudoeste da Bahia, seja feito por uma empresa independente. 

Na semana passada, o governo da Bahia informou que pedirá apoio de órgãos federais para que seja implantado um programa de monitoramento permanente da água utilizada pela população de Lagoa Real. O governador da Bahia, Rui Costa, vai procurar apoio da Agência Nacional de Águas (ANA) e do Ministério do Meio Ambiente e do Ibama, para que seja criada uma rede de inspeção que envolva todos os poços das famílias que vivem na zona rural do município baiano. 

A decisão foi tomada a partir da reportagem publicada pelo Estado no dia 22 de agosto, sobre a contaminação de um poço com alto teor de urânio em um sítio localizado em Lagoa Real. A estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB), que detém o monopólio de exploração do material radioativo no País, encontrou água com alto teor de urânio no poço em 2014 e neste ano, mas não comunicou o fato ao governo da Bahia, tampouco ao Ibama ou Ministério do Meio Ambiente.

Mesmo após realizar as inspeções, a INB declarou neste ano que não havia encontrado nenhuma situação em que a presença de urânio fosse superior ao limite permitido. A estatal opera desde 2000 em Caetité, na única mina de urânio da América Latina.

"É inacreditável que há quase quinze dias, depois que foi divulgada a contaminação por urânio da água do poço na comunidade de Varginha, interior da Bahia, o governo do Estado se limita apenas a anunciar alguma providência para os próximos dias", declara a CPMA. "Por incrível que pareça, tudo que fizeram até agora foi coletar água que já foi analisada duas vezes pela INB, que apontou urânio além do limite permitido. Ninguém entende o que o governo estadual pretende com isto. Ora, a situação é urgente e a população não pode esperar. Urânio não mata a sede e promessas não solucionam os problemas!"

O secretário do Meio Ambiente da Bahia, Eugenio Spengler, disse que o programa de monitoramento permanente que será implantado vai englobar inicialmente 96 poços localizados nas proximidades da área de influência da mineração de urânio. 

A CPMA afirma que não é a primeira vez que o governo baiano promete tomar providências para solucionar problemas desta natureza na zona rural de Lagoa Real. "A população está cansada de viver enganada por empresas e governantes. É preciso ações concretas para atender às urgentes necessidades do povo. O monitoramento periódico de 96 poços não é suficiente." 

"A população precisa de apoio, orientação, políticas públicas que atendam às suas necessidades básicas e lhe dê condições mínimas de vida digna. Orientar as pessoas para não beber água dos poços e nem dar aos animais não resolve o problema. Isso não mata a sede, repetimos! O povo, os animais e as plantações precisam de água para sobreviver. Isso é urgente, não é para amanhã. Seria para ontem!"

Em nome das populações de Caetité, Livramento de Nossa Senhora e Lagoa Real, todos municípios próximos à mina, a organização pede que seja feito um monitoramento independente em todos os poços do entorno da mina, de acordo com as recomendações internacionais de segurança nuclear. 

"Como acreditar que tudo será resolvido, atendendo às demandas da população e não os interesses das empresas e dos governos, que oprimem e massacram vidas e meio ambiente, sem que nada seja feito? Por que o governo baiano limitou-se a informar que vai pedir ajuda ao governo federal, mas não cita uma medida destinada a obrigar a INB a cumprir suas responsabilidades perante as populações e os trabalhadores afetados pelos impactos da mineração de urânio na Bahia?", questiona a CPMA.

A INB nega responsabilidades sobre a água contaminada que encontrou em Lagoa Real. Segundo a empresa, a presença de alto teor de urânio na água da região é natural, por conta da quantidade de minério que há na região. A empresa também afirma que sua mineração não tem influência sobre a água no poço de Lagoa Real, porque estaria em outra sub-bacia hidrográfica e a 20 km de distância de sua mina. 

Mais conteúdo sobre:
Bahia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.