Ônibus 174: promotores pedem novo julgamento de PMs

Os promotores Ana Cíntia Serour e Afrânio Silva Jardim, do 4º Tribunal do Júri do Rio de Janeiro, apelaram nesta quinta-feira para um novo julgamento dos três policiais militares absolvidos da acusação de assassinato do assaltante do ônibus 174, Sandro do Nascimento, de 21 anos, em junho de 2000.Na manhã desta quarta-feira, o júri popular considerou os três inocentes, por 4 votos a 3. A decisão sobre um novo julgamento só deve sair num prazo de pelo menos quatro meses, segundo os promotores.A alegação do Ministério Público para recorrer é que a absolvição é ?manifestamente contrária? ao laudo da necropsia de Sandro e à confissão do capitão da PM Ricardo Soares, que admitira em interrogatório do processo ter ?sufocado? o assaltante na caçamba do camburão.Os soldados Flávio do Val Dias e Márcio de Araújo David o ajudaram, segurando as pernas e braços de Sandro. Depois de manter dez reféns por quatro horas e meia dentro de um ônibus no Jardim Botânico, na zona sul do Rio, Sandro saiu com a professora Geísa Gonçalves, 21, como refém.Alvejado sem sucesso por um policial, ele atirou na mulher e foi preso em seguida, sem ferimentos. Morreu no carro da polícia, a caminho do Hospital Souza Aguiar, no centro.Para o promotor Silva Jardim, a absolvição foi influenciada pela violência atual. ?A sociedade está aterrorizada e passa a admitir excessos dos policiais. Eu não perdi, porque não apostei, não joguei nada. Quem perde é a própria sociedade, cujos membros legitimaram uma barbárie.?Sua colega Ana Cíntia Serour, titular da promotoria, lamentou a decisão. ?Tenho certeza de que o capitão quis matar Sandro. Ele dava aulas de ?uso da força? e sabia muito bem o que é suficiente para imobilizar e para matar. A absolvição é a legalização da pena de morte.?O auto de exame cadavérico 4151/00 do Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto descreve uma série de lesões internas e externas ? na região do pescoço ? que indicam a asfixia de Sandro do Nascimento. Na conclusão do laudo, os peritos-legistas Abrão Lincoln de Oliveira e Carlos Eduardo Sad dizem que a causa da morte foi ?asfixia mecânica por contricção (aperto) do pescoço?, por ?estrangulamento?.Irritado com a vitória da ?tese absurda? do advogado Clóvis Sahione, da defesa, de ?negação de autoria? ? o assaltante teria se asfixiado sozinho ?, Silva Jardim disse que não pretende participar de um eventual novo julgamento.Ele havia recuado da acusação de homicídio triplamente qualificado ? por vingança e asfixia ? para homicídio ?privilegiado?, atenuado por violenta emoção, cuja pena seria de quatro anos em regime aberto. Eles não seriam presos, mas perderiam a primariedade.?Busquei a justiça e cheguei a ser liberal, postulando o que podia em favor dos réus, mas a defesa não aceitou, preferiu usar essa tese absurda de que Sandro morreu sozinho. Agora, se houver novo julgamento, podem ser condenados por homicídio qualificado e ficar presos por mais de 12 anos.?

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.