Ônibus clandestinos atravancam trânsito no centro, sem fiscalização

Coletivos em estado precário param em locais proibidos e vendem bilhetes interestaduais por metade do preço

Diego Zanchetta, O Estadao de S.Paulo

17 Julho 2009 | 00h00

É como uma linha de ônibus, mas com ponto final a mais de 1 mil km de distância. Os coletivos em estado precário vão sendo lotados o dia todo, de hora em hora, em locais proibidos. Os sacoleiros da Rua 25 de Março conseguem ir ao Paraguai repor estoques por apenas R$ 50. O frete interestadual no centro de comércio popular mais famoso do País conta até com um terminal clandestino, com funcionamento das 8 às 19 horas, na movimentada esquina da Avenida Senador Queirós com a Rua Barão de Duprat. A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), a quem cabe a fiscalização dos fretamentos de um Estado para outro, diz que estuda um convênio com o Município (mais informações nesta página) para combater os clandestinos. A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) diz que já combate o problema regularmente na região. Os fretados do terminal ilegal param na faixa da direita da Senador Queirós, em local proibido até para descarga, no sentido centro da via. Até serem lotados pelos passageiros, ficam parados por quase duas horas e estrangulam ainda mais o trânsito da região, tomando uma faixa da via. Com os coletivos parados na esquina, os carros formam filas imensas na Barão de Duprat, na tentativa de entrar na avenida que leva ao centro. Durante dois dias, a reportagem do Estado acompanhou a lotação desses fretados na região da 25. Em nenhum momento, fiscais da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) que atuam na área impediram os ônibus de permanecerem parados na Senador Queirós. O serviço é percebido por qualquer um que passa na calçada, uma vez que os funcionários ficam com pranchetas e rádios nas mãos, abordando os pedestres. Há até cadeiras de plástico na esquina, onde alguns agentes ficam sentados. A própria reportagem foi convidada a pegar um fretamento para o Paraná ao passar pelo local. Apesar de a linha mais disputada ser a de Foz do Iguaçu, com três fretamentos diários, no terminal também é possível pegar coletivos semanais com destino a Brasília, Natal, Curitiba e São Luís. Os preços são até três vezes mais baratos que os praticados por empresas da Rodoviária do Tietê e crianças de até 7 anos não pagam. Por exemplo: por uma viação comum, a viagem até Curitiba sai por R$ 61, em ônibus convencional; no fretado clandestino, o preço cai para R$ 25. Como se fossem agentes de pacotes turísticos, os funcionários do terminal também ficam em pontos estratégicos da 25 de Março e da Rua Florêncio de Abreu. A exemplo dos camelôs, eles gritam para anunciar o produto. "Foz do Iguaçu, Curitiba, 15 horas. Só R$ 50, guardamos e empacotamos volumes", gritava na quarta-feira um dos funcionários do terminal, onde também é possível guardar os pacotes das compras. Se o usuário resolve pela manhã, por volta das 11 horas, buscar mais produtos no Paraguai, a linha das 14 horas no fretado ilegal quase sempre ainda tem vagas. Usar o clandestino é vantagem para camelôs e donos de lojas que precisam fazer viagens rápidas até o país vizinho, sem hora marcada ou passagem comprada com antecedência. "O ônibus aqui para muito menos que o da rodoviária; até Foz do Iguaçu são só três paradas, no máximo", diz a sacoleira Bernadete Lemos, de 56 anos, moradora na zona leste de São Paulo. Os dois filhos têm barracas em um shopping popular da 25 de Março. À mãe cabe comprar os produtos na fronteira com o país vizinho. "Pode falar o que for, mas eletrônico barato mesmo é no Paraguai." FISCALIZAÇÃO A dez dias de entrar em vigor as restrições ao transporte de fretamento na capital, as linhas interestaduais clandestinas acentuam o caos do trânsito em parte do centro da capital, sem sofrer fiscalização do poder público. Presidente da organização não-governamental (ONG) Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), Marcos Bicalho considera que o Município também deve coibir o frete interestadual clandestino. "Se o ônibus está estacionado em local proibido, o poder municipal tem de ir lá multar. Embora não seja responsabilidade direta, a Prefeitura também deve agir para coibir esses fretamentos. As agências reguladoras, como ANTT e Artesp, não têm estrutura para fazer esse tipo de autuação, cuja responsabilidade deveria ser transferida para os Estados. Ninguém consegue fiscalizar nada de Brasília", considerou Bicalho. No Brás, onde existe um movimento de fretados que já saem lotados de seus Estados e voltam com os mesmos passageiros, há um bolsão de 15 mil metros quadrados para o estacionamento dos veículos. Ao contrário da região da 25 de Março, onde os fretados circulam o dia todo e sem pontos de parada, no Brás a chegada dos fretados ocorre ainda de madrugada, por volta das 5 horas. "No Brás há um movimento de fretados importante para a economia local - e com regras mais definidas. O mesmo deve ocorrer na região da 25", completou o presidente da ANTP.

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