Ônibus colabora com poluição sonora em SP

Em nove ruas da capital, um único coletivo é capaz de trazer até 10 decibéis extras de ruído

Fernanda Aranda, O Estadao de S.Paulo

15 de setembro de 2009 | 00h00

A poluição sonora "circula" de ônibus pela cidade de São Paulo. Com um aparelho especial, o Estado constatou que, mesmo em vias já saturadas de barulho - como a Rua Augusta, no centro -, um único coletivo é capaz de trazer até 10 decibéis extras quando passava pela rua, o que contribui para o estresse e a surdez urbana. Nove ruas da cidade foram percorridas pela reportagem. Todas apresentavam índices preocupantes de ruído.

Com auxílio técnico do Centro Auditivo Telex em São Paulo, constatou-se que as vias São João, Ipiranga, Amaral Gurgel, General Jardim, Augusta, 23 de Maio, Túnel Ayrton Senna, Luiz Carlos Berrini, além do Viaduto do Chá, registraram ontem (entre 9h30 e 11h30) decibéis entre 75 e 96, já considerados pelos especialistas prejudiciais após longo período de exposição. Com a presença dos ônibus a situação era agravada, saindo da média de 81 db na Augusta para picos de 91; na 23 de Maio, os coletivos ampliaram a média de 78 para 84, na Berrini de 79 para 86 - sem veículo na hora da medição, o índice desta via caiu para 53 decibéis.

Para atenuar os efeitos de tanto zumbido na saúde auditiva dos motoristas e dos passageiros de ônibus - nos condutores, estudos da Unicamp constataram que a perda de audição afeta até 80% -, a Lei Municipal 13.542 obrigou que se colocassem os motores do transporte público na parte traseira dos ônibus. Apenas essa medida, avalia o engenheiro Luiz Felipe Silva, que defendeu doutorado na USP sobre o tema, já seria "eficiente para melhorar o ambiente de trabalho dos profissionais".

No entanto, sete anos depois da lei, metade da frota paulistana ainda trafega com as peças na dianteira (4.514 coletivos dos 8.912 existentes). O motivo é um decreto promulgado no mesmo ano da legislação, que possibilitou "exceções". Motores na parte da frente seriam liberados caso o ônibus precisasse circular em vias com muitas lombadas, valetas, curvas e não restasse nenhuma outra alternativa mecânica sem ser veículos com peças dianteiras (que são mais altos). Segundo a São Paulo Transporte (SPtrans), laudos técnicos comprovam que esse é o caso para 50,4% da frota atual. "Com isso, trabalhamos em uma situação ensurdecedora", afirma o diretor do Sindicato dos Motoristas de Transporte Urbano (Sindmotoristas), Nailton Francisco de Souza. "Isso compromete não só a audição dos colegas como a qualidade do transporte como um todo. Os condutores ficam estressados, irritadiços e os passageiros, também."

De acordo com a fonoaudióloga Isabela Gomes, do Centro Auditivo Telex, a perda auditiva em muitos casos é irreversível e só é descoberta muito tarde. "Por isso, exames de rotina são tão importantes", afirmou.

RECORDE DE BARULHO

A preocupação com a saúde auditiva não deve ser reflexo apenas do som provocado por ônibus, carros e caminhões. Bares, restaurantes, obras e até igrejas contribuem para a poluição sonora. Os números da Secretaria de Coordenação das Subprefeituras, divulgados ontem pelo Estado, confirmam que o assunto incomoda cada vez mais o paulistano. Entre janeiro e julho, 417 bares foram multados por infringir a lei do silêncio, recorde desde 2005.

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